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Notas de Romance
 
Gedrin Ruína das Sombras

Por Erik Scott de Bie.
Traduzido por Renata Ungaretti; revisado por Daniel Bartolomei Vieira.



A seguir está a apresentação de um novo conto de Erik Scott de Bie – autor do romance recentemente lançado Downshadow [Queda das Sombras]:

Já se perguntou como é realmente ser um paladino? Um cavaleiro sagrado, tentando viver em uma cidade muito pouco sagrada? Uma cidade cheia de mulheres tentadoras que se interessam por você, e velhos inimigos cuja sede por sua desgraça cresce a todo o momento?

Downshadow [Queda das Sombras] mostra, em um conto cheio de batalhas, traições, situações desagradáveis, inimigos à espreita… e as salas e passagens sombrias do bairro mais perigoso de Águas Profundas: Downshadow [Queda das Sombras], abaixo das pedras e depósitos e das passagens subterrâneas de esgoto.

Gedrin Ruína das Sombras

Dizem que os heróis das lendas podem ver a morte rondando antes que ela apareça para encontrá-los.

E apesar de todos os heróis morrerem, o que os faz lendários é como escolhem enfrentar a morte – se chorando ou com um sorriso.

– Catalan, o Louco
Onze Campeões Perdidos, publicado em 1403

Flamerule, 1463, O Ano do Herói Renascido

“Mestre?”, veio a voz por detrás dele.

Gedrin Dren estava silencioso, sentado na frente da janela coberta por tábuas em seu quarto alugado, olhando para os escombros da apodrecida cidade portuária de Luskan. Ele via as fogueiras ainda acesas nas ruas, queimando pela noite sem ninguém para apagá-las – isso, e os gritos dos feridos e moribundos, sem qualquer esperança de salvamento.

Essa era uma cidade que os deuses haviam abandonado, em um mundo que os deuses haviam destruído.

“Mestre?”, seu escudeiro se esgueirou mais para dentro do quarto e parou quando viu Gedrin sentado imóvel como uma estátua. Gedrin virou a cabeça, e o jovem deu um salto para trás. “Oh! Mil desculpas! Eu não…”.

“Não há problema, Drovesm”. Gedrin acenou com a mão áspera, a pele manchada pela idade avançada. “Está ficando tarde, eu sei – dê-me apenas mais um minuto”.

“Como quiser, Mestre Ruína das Sombras”.

Gedrin moveu seus olhos pálidos – sua cor havia desbotado para o branco da cegueira há três décadas, tornando-o cego de um olho – na direção do seu aprendiz, e o jovem se encolheu.

Na verdade, não era bem um jovem, pensou Gedrin. Alto, magro e de cabelos negros, Drovesm era sessenta anos mais novo do que Gedrin, mas isso o colocava além do seu trigésimo inverno. Fazia com que Gedrin se sentisse velho, o que era verdade, e Gedrin nunca tentou se esquivar da verdade.

“Sem medo”, ele disse, sorrindo. “Tudo vai ficar bem – como o Olho sempre vê”.

“É claro, mestre”.

Ele congelou Drovesm com o olhar tão facilmente quanto se o tivesse segurado pelo braço. Era simples segurar um homem com o olhar, apesar de ele ter demorado cinqüenta anos para aprender esta arte.

“O Olho vê todas as coisas, Drovesm”, disse Gedrin. “Todas as coisas”.

O rosto de Drovesm empalideceu ainda mais, e ele baixou os olhos rapidamente. Ele murmurou algo que poderia ser uma afirmativa – ou possivelmente uma prece.

“Apenas um momento, Mestre, e depois precisamos nos apressar”. Drovesm não o encarava. “Gostaria de chá ou algo para comer?”

“Não”, disse ele. “Mas você deveria comer – você é um jovem, e precisa da sua força.”

“É claro”. Drovesm claramente não iria comer. Gedrin não se surpreenderia se seu estômago estivesse amarrado em um nó artístico. “Vou buscar seu cajado para caminhar”.

Gedrin sorriu fracamente. Esta noite seria perfeita para passar a Defensora adiante, se Drovesm não estivesse pronto para traí-lo nesta mesma noite.

“Então será você”, Gedrin murmurou tão suavemente que apenas um ladrão treinado poderia ouvi-lo. “Esperava mais da sua pessoa”.

Drovesm parou à porta. “Disse alguma coisa, Mestre Ruína das Sombras?”

Gedrin meneou a cabeça. “O elefante, eu acho – traga-o aqui, antes de preparar suas próprias armas. Eu gostaria de ficar a sós um momento para refletir”.

“Sim, Mestre”.

Quando o jovem saiu, Gedrin virou-se para a janela e suspirou.

No mundo antigo, antes que a Praga Mágica re-escrevesse as leis da magia, paladinos sagrados podiam sentir o cheiro do mal onde quer que estivesse. Agora estes poderes estavam perdidos para os Reinos dos mortais, mas Gedrin era uma relíquia daquela era e ele se lembrava bem como ler o coração dos homens, mesmo que não houvesse magia no processo. Drovesm exalava escuridão – a mesma escuridão que Gedrin havia combatido durante todos os seus noventa e cinco invernos sem alegrias.

Não – não, isso não era verdade.

Tinha havido alegria em sua longa vida, refletiu Gedrin. Noites em que ele havia deitado entre os braços morenos de sua esposa Sivgena, soletrando o nome dela nas estrelas, e então, anos depois, os nomes dos filhos deles. Em noites quentes como essa, quando Selûne se erguia, cheia e brilhante, ele ainda podia ouvir sua risada no vento e ver seu lindo sorriso pelo canto dos olhos.

Os olhos de Gedrin podiam ter falhado com ele há décadas, mas seus ouvidos permaneceram afiados como sempre. Ele ouviu o murmúrio da voz de Drovesm embaixo, o escudeiro cochichava com um mensageiro.

Tudo estava sendo combinado, Gedrin sabia, e isso o deixava em certa paz.

Ele havia conhecido tão pouco da paz, em quase oitenta anos carregando a espada do Deus Tripartido através de batalhas e guerras. Ele havia enterrado a maior parte de seus alunos e amigos, visto a morte de cada um de seus filhos e, quando as sacerdotisas de Shar manipularam Sivgena para que ela ficasse contra Gedrin e o Olho, ele mesmo havia dado fim a ela. Havia sido o dever de Gedrin, mas ele nunca se perdoara. Um fim seria verdadeiramente bem vindo.

Mas, quando viesse, ele faria com que fosse um fim memorável…

“Mestre Ruína das Sombras, o senhor está bem?”. Uma barba castanha rala emoldurava o rosto nervoso de Drovesm enquanto seus olhos escuros observavam seu venerável mestre. Porque é isso que tantos anos de trabalho e sangue fizeram de Gedrin: venerável.

No entanto, ele não achava que alguém fosse venerar sua memória.

“Paz, filho”, Gedrin disse tranquilamente. “Eu estou pronto”.

“Graças ao Deus Tripartido”, disse Drovesm, limpando o suor da testa. “Por um momento, eu pensei que não fossemos conseguir fazer nosso dever esta noite. Me preocupei achando…”.

“Eu sei com o que se preocupou”. Gedrin olhou para seu acólito serenamente, porém seu rosto demonstrava a gravidade da situação. “Estou apenas velho – não aleijado".

“É claro, mestre”. Drovesm fez uma mesura. “Perdoe-me se pensei de outra forma”.

“Não há nada para se perdoar”, disse ele, suavemente.

Drovesm lhe deu seu cajado com a ponta de marfim, esculpida como a cabeça de um elefante. Décadas de uso haviam alisado o marfim – a suavidade o lembrava da pele de Sivgena. Com seu cajado, Gedrin podia ficar de pé. Assim que Drovesm certificou-se de que ele estava equilibrado, o jovem saiu para se equipar com suas próprias armas na preparação para a noite que estava por vir, deixando Gedrin sozinho na janela.

Enquanto ouvia Drovesm se mover pela antecâmara, arrumando a armadura e ajustando-a, Gedrin olhou para o céu noturno envolto em fumaça. Ficou imaginando se Selûne havia aceitado Sivgena em seus braços, depois que ela havia traído a ambos com sua irmã sombria, Shar. Gedrin ficou imaginando se sua esposa e seus filhos o estariam esperando além do véu – e se uma vida de heresia significava uma eternidade no muro dos falsos e descrentes.

Pelo menos havia restado uma filha. Mesmo que sua querida Levia não fosse de seu sangue – e jovem o suficiente para ser sua neta – ela o amava como a um pai, e aquele amor o havia sustentado bem todos estes anos. Sem ela, ele teria morrido anos atrás.

Que herança deixava ele para aquela que o amava? Ele não sabia. E quem assumiria a Defensora após esta noite – ou cairia ela em desgraça, como acontecera em tantas outras partes do mundo?

Estas perguntas atormentavam Gedrin, e pela primeira vez desde Sivgena ele sentiu as unhas gélidas da dúvida atormentando-o. Ele havia pensado que isso não teria importância – que a causa estaria perdida – mas agora…

“Está preparado, Mestre?”, Drovesm perguntou da porta. Ele havia vestido sua couraça de couro negro e usava espadas gêmeas que pareciam ser próprias para um ladino, e não um paladino. Era o modo como treinara – o modo como Gedrin havia treinado a todos.

Gedrin fez a saudação, mostrando as costas da mão com os dedos para cima. O Olho de Helm, o deus dos guardiões há muito falecido, brilhava no anel que usava em seu anular esquerdo. Quando baixou a saudação, seu manto negro se fechou sobre o anel, ocultando o símbolo nas sombras. Da mesma forma como Gedrin havia vivido toda sua vida: oculto. Talvez não houvesse sobrado luz no mundo.

Ele bateu suavemente no punho da Defensora, sua confiável espada de mão-e-meia – a espada do deus que ele havia visualizado pela primeira vez em uma visão e havia carregado por todos os dias, desde então.

“Mais uma vez, velha amiga”, ele sussurrou. “Mais uma vez – e então poderemos descansar”.

*****

O debilitado porto de Luskan ficava na costa do Mar Sem Rastros como uma ferida esperando para ser arrancada – mas era um ferimento que havia se tornado tão inchado, feio e profundo que não poderia ser lancetado sem matar o corpo de Faerûn ao redor. Ladrões e assassinos governavam as ruas – homens se tornavam lobos, devorando o que quer que conseguissem encontrar.

Eles passaram por uma hospedaria capenga, chamada Hospedaria da Velha Mari, e Gedrin viu um grupo de homens e mulheres amontoados na entrada do beco, olhando fixamente como seres sem vida. Seus mantos eram feitos de pedaços de sacos de batata ou grãos, costurados, que agora envolviam corpos que se assemelhavam a galhos quebradiços. Eles esperavam, contorcendo-se e tremendo, sem falar.

“O que foi, Mestre?”, perguntou Drovesm, mas Gedrin apenas balançou a cabeça.

A porta finalmente se abriu para deixar entrar uma mulher de sessenta ou setenta invernos, com uma face pontuda que demonstrava a idade – a própria Mari, Gedrin imaginou. O povo faminto a empurrava estupidamente, mas ela os desviava com um bastão robusto. Quando a entrada ficou livre, ela pôs a mão para dentro da estalagem e tirou de lá um pote de ferro preto, entregando-o ao povo reunido ali.

“Peguem o que sobrou, e quero meu pote limpo depois”, disse ela, passando o braço pela testa. “Tenho que começar a fazer o ensopado 'prá manhã antes da meia noite”.

O povo esfomeado caiu em cima do pote como cães sobre uma raposa abatida. Gedrin pensou que Mari teria seu pote de volta antes de poder contar até cinqüenta.

“Os deuses sabem que sou generosa demais”, ela resmungou. “Mas gentileza nunca fez mal a ninguém”.

Gedrin encontrou o seu olhar, e era um olhar frio e julgador, que se abrandou, transformando-se em compreensão. Ele desviou os olhos, e eles continuaram seu caminho.

Os prédios e praças de Luskan nunca haviam sido grandes ou ricos, mas agora eram pouco mais do que esconderijos e cortiços destruídos e malcheirosos onde homens e mulheres doentes chafurdavam por moedas como porcos na lama. O coro de vozes cheias de dor e morte subia através das casas em ruínas e das mansões destroçadas para se unirem aos gritos de prazer.

A maioria destes últimos saía das janelas do Espora Briante, do outro lado da rua – um prostíbulo, cujas janelas tapadas com tábuas permitiam vislumbres de velhas sedas e aromas fugazes de incenso. O símbolo do lugar tinha apenas sete de suas letras originais, que poderia ser lido como Espora “Brilhante”.

Para Gedrin Ruína das Sombras – que raramente encontrou alegria nos braços de uma amante – os sons de prostitutas trabalhando eram lembrança de uma vida vazia da carne. E ainda assim, ele ouvia um testemunho do poder dos homens e mulheres mortais de ver luz à sua frente, apesar da escuridão. Eles comerciavam seus corpos e desistiam de sua vontade pelas moedas, e, no entanto, encontravam alegria. Eles davam e achavam conforto uns nos outros, mesmo rodeados por sua cidade apodrecida.

Quando mais jovem – como um fanático do Deus Tripartido – ele teria condenado estas pessoas como sendo irredimíveis e sem esperança. Agora, em sua idade avançada, ele não podia deixar de sorrir. Todos estes anos desprezando os pecadores – todos estes anos desperdiçados.

Ao seu lado, Drovesm também escutava os sons dos jovens homens e mulheres que trabalhavam por moedas no prostíbulo, mas Gedrin sabia que não havia nada de nobre no interesse do seu aprendiz. Era simplesmente interesse na carne, e não tinha nada a ver com luz ou escuridão.

“Escudeiro”, disse Gedrin, e Drovesm ficou imediatamente atento. “Meus olhos me traem na luz do luar de Selûne. Guie nosso caminho”.

“É claro, Mestre Ruína das Sombras – é claro”. Drovesm lentamente deixou de prestar atenção no prostíbulo. Ele cuspiu na rua enlameada. “Putas”.

Gedrin olhou-o criticamente, mas manteve seu silêncio.

Então seu olhar recaiu sobre um mendigo que estava sentado na esquina do Espora.

Seus olhos eram ruins, a rua estava um caos e Selûne estava escondida atrás de nuvens agourentas, e Gedrin não sabia dizer como conseguira ver o garoto pedinte. Mas ele o viu: uma criança de cerca de oito invernos, curvada, envolta em vários trapos encardidos. Talvez ele houvesse tossido ou se mexido de alguma forma – ou talvez fossem seus olhos. O menino olhava fixamente para Gedrin de uma forma ardentemente intensa que ele não havia visto em muitos anos.

“Mestre?” perguntou Drovesm, quando Gedrin pisou na estrada. “Mestre, o que…?”.

Gedrin foi lentamente até o garoto, mas em consideração à sua idade, não por cautela. Ele sentiu novamente a sensação familiar de escuridão vinda do garoto, mas havia luz também. Aqui havia uma alma que não estava perdida, mas também não estava salva. Os olhos do garoto – tão cinzentos que eram quase brancos – permaneciam no rosto de Gedrin com uma certeza e confiança que o impressionaram.

Eles estavam ali, parados, o velho e o menino, olhando um para o outro. Gedrin viu cicatrizes em volta dos lábios do garoto – provavelmente ele tinha o hábito de morder os lábios – e um nariz que tinha quebrado e tinha sido colocado no lugar de forma desajeitada. Sua pele estava muito suja, com marcas de lágrimas descendo pelas bochechas. Ele estava segurando sua mão esquerda, nitidamente quebrada. Todos os dedos tinham marcas de mordidas – parecidas com as dos lábios.

Então o garoto estendeu uma vasilha de cerâmica quebrada em sua direção. “Dá uma moeda?”, ele perguntou. “Não como há dias”.

A voz abalou Gedrin e ele fez uma carranca. “O que foi que disse, garoto?”.

Outro pedinte poderia ter saído correndo diante da raiva crescente de Gedrin, mas o garoto apenas fechou a boca e olhou-o de volta, sem medo.

“Estou com fome”, disse ele. “Dá uma moeda pra eu comer”.

Gedrin deu um sorriso torto. O garoto certamente era corajoso.

Seu aprendiz o chamou, com voz nervosa. “Mestre? Precisamos nos apressar”.

“Fique tranqüilo, Drovesm”. Gedrin cruzou os braços. “Seu nome, garoto”.

O menino olhou para ele, curioso, como se ninguém jamais houvesse perguntado isso a ele antes.

“Você deve ter um nome”, disse Gedrin.

“Kalen.” A palavra soou hesitante nos lábios do garoto. “Mas ninguém me chama assim – ninguém além da minha irmã”. Ele parecia cauteloso, como se tivesse cruzado alguma linha proibida e mostrado muito de si mesmo. Os olhos da cor da noite eram desconfiados – mas também cheios de personalidade. Eles pareciam, na visão embaçada de Gedrin, quase que um único olho vigilante.

O líder visionário do Olho da Justiça nunca havia ignorado um sinal.

“Eu sou o paladino Gedrin Dren, também chamado de Ruína das Sombras,” disse Gedrin. “Lorde do Olho da Justiça – cavaleiro escolhido do Deus Tripartido. Você compreende?”.

O garoto franziu as sobrancelhas. “Não”, ele disse, com sinceridade. “Seu nome, sim, mas eu nunca ouvi falar do…”.

De baixo de seu manto, Gedrin tirou Desfensora – em sua bainha negra, perfeitamente balanceada – e desembainhou a lâmina alguns centímetros. O garoto prendeu a respiração diante da visão do aço cinzento, onde as sombras tremeluziam.

Não havia medo nos olhos do garoto – apenas deslumbramento. Gedrin poderia ter enterrado a lâmina em seu peito num piscar de olhos e o garoto não teria parado de se maravilhar diante da Defensora. As sombras da espada do deus dançavam por entre seus olhos pálidos perspicazes.

Talvez Gedrin tivesse feito a escolha certa, após tantos anos de escolhas ruins.

Gedrin segurou a Defensora com reverência, medindo pela última vez o peso familiar, e então deixou-a cair quase que desdenhosamente, como se estivesse se livrando de uma chateação irritante. A espada fez um ruído surpreendentemente suave – tudo na Defensora era surpreendente – nas pedras quebradas da rua e depois ficou imóvel diante dos olhos espantados do garoto.

“Nunca mais mendigue”, disse Gedrin.

Quando o garoto tentou falar, Gedrin moveu sua mão e deu-lhe uma bofetada na orelha. Espantado, os olhos dele se encheram de súbita raiva, e ele olhou furiosamente para o velho. “Por que fez isso?”

“Para que se lembre”, disse Gedrin. “Aceite-a – não tente fugir dela, como eu fiz.”

Ele também tirou de sua mão um anel – o anel de prata com a imagem do olho-que-tudo-vê na palma de uma mão enluvada levantada. Este ele largou na vasilha de cerâmica, onde aterrisou com um tilintar alto.

“Quando você seguir o caminho tripartido”, disse ele. “Vá para Portão Ocidental. Encontre minha filha Levia e mostre-a este anel. Ela vai saber o que ocorreu entre nós.”

“Mas…”, o garoto olhava boquiaberto para a espada que estava entre seus joelhos. “Eu não compreendo”.

Gedrin se virou, arrastando seu manto largamente para esconder o garoto atrás dele. Ele também enrolou o manto no seu braço esquerdo para ocultar a falta da bainha da Defensora. Drovesm se aproximava, seu rosto confuso cheio de preocupação. “Mestre, o que o senhor…?”.

Drovesm inclinou-se para ver do outro lado do manto, mas Gedrin deu um passo à frente e agarrou-o pelo braço. “Chega de atraso”, disse ele. “Continuemos com nossos negócios, e logo”.

Drovesm tentou olhar novamente, mas Gedrin puxou-o mais ainda. O jovem acabou cedendo.

Andaram pela rua, em direção às docas em ruínas e ao seu destino: Mercadorias de Barthul, um depósito cavernoso cujo dono era um comerciante de má reputação que se supunha ter negócios com os mercadores mais suspeitos de Águas Profundas, e vendia bens recém roubados a preços exorbitantes nas ruas de Luskan. Nesta mesma noite, havia uma reunião de mercadores poderosos que comerciavam armas e venenos. As ações de Barthul levaram à mortes e ao caos nesta cidade apodrecida, e Gedrin iria acabar com isso – de uma forma ou de outra.

Eles hesitaram fora do depósito. A riqueza de Barthul aparentemente permitia que ele tivesse janelas de vidro mesmo em Luskan, e o fato de elas ainda estarem intactas mostrou a Gedrin que ele era conhecido por ladrões da área como sendo uma força a ser evitada. Uma luz turva enchia as janelas escurecidas, e o som de vozes tocou seus ouvidos sensíveis, se misturando com o cheiro de carniça em suas narinas.

Gedrin olhou na direção da baía, olhando pela última vez os Reinos que ele amava – e odiava – tanto. Os poucos barcos que navegavam balançavam suavemente em seus ancoradouros. Os restos de navios menos afortunados marcavam covas aquáticas de incontáveis marinheiros, e novos corpos estavam se juntando ao grupo de mortos todas as noites. Perto dali, Gedrin viu dois homens se livrando exatamente de uma carroça cheia de homens e mulheres – os corpos nus pareciam ter morrido de doenças, assassinatos e fome.

“Seu anel, Mestre”, disse Drovesm, apontando para a mão que segurava a bengala com a cabeça de elefante. “O senhor o perdeu?”.

Gedrin pensou no garoto de olhos brancos e sorriu. “Rezo aos deuses para que não”.

*****

Quando Drovesm o levou para o meio de um grupo de ladrões e assassinos esperando no depósito de Mercadorias de Barthul, Gedrin não se surpreendeu. Ele já sabia há meses que esta traição ocorreria.

“Eu juro, Mestre, que não tinha idéia…”. Drovesm protestou, mas Gedrin não estava escutando. Em vez disso, ele avaliou os brutamontes que haviam vindo acabar com sua vida.

“Bem vindo, Ruína das Sombras”, disse uma voz profunda e forte – o próprio Barthul, Gedrin adivinhou pela forma como o homem gordo comandava a atenção de todos na sala. Ele parecia ter sido um homem enormemente forte um dia, apesar de estar arredondadamente gordo na sua idade avançada. Vestia um manto roxo e aplaudia ironicamente. “Que honra recebê-lo!”.

Gedrin não respondeu – ele não via razão para participar desta farsa.

À direita de Barthul estava uma sacerdotisa de Bane trajando uma negra armadura de pregos, e segurava um cetro que crepitava com raios esverdeados. Gedrin reconheceu-a, mesmo que não pelo nome – eles haviam lutado uma vez antes, nos becos de Portão Ocidental, e esta era provavelmente a vingança dela por aquela derrota.

À direita do gordo mercador estava um homem barbado vestido de negro que segurava uma varinha em cada mão – um mago Zhent, sem a menor dúvida. Eles eram todos iguais, os magos da Rede Negra, apesar de bem mais fracos do que haviam sido quase um século antes.

Quatro outros mercadores – homens e mulheres de locais tão longínquos quanto Amn e Calimshan, a julgar por seus traços e vestimentas – estavam nervosamente perto de Barthul. Claramente não eram combatentes, estando ali apenas para observar. Entre Gedrin e os comerciantes estavam uma dúzia de homens e mulheres armados de espadas, clavas e facas de diversas formas e tamanhos – muitos dos quais escorria veneno negro e esverdeado. Seus olhos estavam famintos e seus olhares de desprezo eram venenosos.

“Que honra”, continuou Barthul, “ter tão nobre e lendário herói agraciando nossa pequena reunião com sua presença”.

Gedrin assentiu rigidamente. Ele não se curvaria a homem nenhum.

O gesto de indiferença e arrogância não foi ignorado pelo mercador, que se tornou levemente rosa. “Você tem atrapalhado meus negócios em Luskan por algum tempo, Gedrin Ruína das Sombras”, disse Barthul, deixando de lado qualquer pretensão de cortesia. “Hoje, farei de você um exemplo para meus associados. Vejam só, caros colegas de negócios, o que acontece quando se desafia Barthul, o Negro”.

Os brutamontes seguraram suas armas. Seus rostos, no entanto, mostravam nervosismo – afinal de contas, Gedrin Ruína das Sombras era um herói, e ninguém queria ser o primeiro a se mover. O mago e a sacerdotisa esperavam, com as magias brilhando nas pontas dos seus dedos, mas Gedrin podia ver preocupação também nos olhos deles.

“Sinto muito, Mestre”, Drovesm disse, da porta. Ele havia abandonado sua tentativa de convencer Gedrin de sua inocência e disse a verdade. “Eles me ofereceram muito dinheiro, e o seu caminho é tolo. Deste modo é melhor – melhor para todos nós.”

Gedrin não se incomodou em replicar. Não havia propósito em fazê-lo – apesar de admirar o fato de Drovesm ter admitido suas falhas. Na verdade, ele achava que isto estaria acima do rapaz.

Um pouco sem jeito, ele ajoelhou-se e baixou a cabeça.

“Esta é a última conspiração que demoverei”, disse ele. “O último antro maligno que extirparei e eliminarei antes de me entregar à paz e ao descanso. As sombras e a escuridão devem ser perseguidas em toda forma, através de todas as ruas, por qualquer caminho, não importa quão escuro, até que sejam eliminadas do mundo”. Ele olhou em volta para todos eles. “Vocês são todos corruptos, e devem queimar”.

As palavras de sua ostentação ecoaram pela câmara, e as pessoas ali reunidas se enrijeceram. Os mercadores, especialmente, ficaram pálidos ao ouvir esta condenação. Até a sacerdotisa parecia em dúvida, e as mãos do mago tremiam.

Barthul, no entanto, não se alterou. “Diga-nos, Ruína das Sombras”, o corpulento mercador perguntou, apontando para o cinto de Gedrin. “Como é que planeja acabar com todos nós sem sua espada lendária? O velhote estúpido vem a nós desarmado!”.

Isso ressegurou um pouco os contratados de Barthul. O terror que radiava de Ruína das Sombras foi quebrado, e os brutamontes relaxaram visivelmente. A sacerdotisa parecia satisfeita e o mago sorriu, expondo uma boca cheia de dentes afiados.

“Mate-o agora!”, disse Barthul.

Gedrin Ruína das Sombras deu um pequeno sorriso e fechou os olhos. Ele murmurou uma prece para o Deus Tripartido.

Ele então explodiu em luz, arremessando os homens para longe.

*****

Quando Gedrin abriu os olhos, o mundo estava em chamas.

Barthul, os brutamontes, o mago, a clériga negra, e o traidor Drovesm, gritavam e arranhavam as paredes, tentando escapar da luz abrasiva. Gedrin, ajoelhado, continuava exalando luz, que queimava olhos, cabelos, pele.

Aqueles que receberam a maior parte dos raios morreram rapidamente. Barthul explodiu como uma uva podre e evaporou, deixando para trás apenas uma sombra na forma de um homem aterrorizado. O mago se debateu desesperadamente e se transformou em cinzas escuras como uma folha de papel queimada por chama voraz. A soluçante Banita se contorceu contra a parede como se estivesse crucificada, pregada na argamassa pela luz carbonizante que saía do velho paladino, e então veio ao chão em um monte de carne e ossos queimados. Os soldados que tiveram a má sorte de estar entre Gedrin e seus mestres gritaram quando suas armas explodiram em chamas brilhantes, e caíram no chão, sufocados, incapazes de respirar o ar ardente.

“Mestre!”, Drovesm gritou. “Mestre… por favor! Eu estava errado!”.

“Que a luz da justiça o purifique, como purificou a mim”, Gedrin rezou através do brilho ofuscante. “Os malignos não podem ficar de pé, mas a luz mostra compaixão aos arrependidos”.

Abandonando palavras, Drovesm bateu com sua cabeça contra a parede, tentando desesperadamente fazer com que a dor parasse. Então, ouviu-se um ruído surdo e ele veio ao chão, o corpo em espasmos.

Homens e mulheres caíram de joelhos, pedindo perdão, mas a luz consumia tudo. Aqueles mais perto do paladino foram queimados e viraram cinzas, e aqueles um pouco mais distantes estavam com o sangue borbulhante e as lágrimas evaporando com o calor.

O depósito se encheu de morte naquela noite – morte que veio rápida nas asas da radiância cauterizante, frente a qual ninguém podia ficar.

“Mas… mas não somos maus!”, gritou um mercador de Amn que tentava em vão se esconder da luz. “Por favor! Eu… eu sou mercador de moedas! Eu não sou um homem bom, mas não sou mau!” Ao lado dele, uma mulher de Calimshan de rosto afilado guinchava escondendo a face cheia de queimaduras.

A luz diminiu um pouco, como se as palavras a tivessem amortecido. Então Gedrin suspirou.

“Mas você é corrupto”, disse ele, tristemente. “E isso é a mesma coisa”.

A luz se renovou, mais brilhante do que antes. O mercador caiu com um gemido, e o cabelo da sua companheira desapareceu nas chamas enquanto ela caía sem sentidos, suas mãos destruídas revelando um pedaço de carvão onde seu rosto estivera.

Os gritos foram diminuindo – todos os seus inimigos haviam sido queimados até o ponto que mal se distinguia que ali houvera vida.

*****

Após uma dúzia de respirações agonizantes e dolorosas, a luz finalmente diminuiu e desapareceu em volta do velho paladino. Ele se ajoelhou no centro de um vasto círculo de cinzas mortais e olhou em volta com uma mistura de tristeza e resignação. Até que descansasse um pouco, a luz se esconderia além do seu alcance – ele havia gasto o máximo que sua carne podia agüentar.

Gedrin Ruína das Sombras sentiu seu coração bater rapidamente. Ele não havia canalizado tal poder em décadas, desde quando havia eliminado, a serviço de seu deus, um enorme dragão das sombras. Talvez a morte estivesse finalmente chegando, e ele temia e ansiava por aquela escuridão com a mesma intensidade.

A escuridão veio, mas não da maneira como ele havia imaginado.

Uma forma saiu das sombras. Se Gedrin tivesse olhado para trás quando a luz estava brilhando, ele poderia ter visto o homem das sombras encolhido no canto, o mais longe possível da luz cegante, mas apenas se ele olhasse da forma certa. A criatura andava pelas sombras como se elas fossem um mundo à parte, como de fato o eram.

Gedrin reconheceu imediatamente seu antigo inimigo, apesar de muitos anos terem se passado desde a última vez que haviam se visto. “Kirenkirsalai”, disse ele.

Era um nome que ele não havia pronunciado em trinta anos, desde o duelo em que havia destruído a criatura em que Sivgena havia se tornado – uma criatura que ele, o homem das sombras, havia criado. Isso importava pouco, agora. Gedrin estava acabado.

“Você se lembra”, o homem das sombras disse. “Você se lembra do nome que te dei para me chamar”.

Gedrin considerou seu inimigo. Ele poderia um dia ter sido um mortal nascido de um humano e de uma elfa, mas havia pouco de humano nele agora – não havia há mais de um século. Seus olhos, para começar, eram completa e inteiramente negros – sem branco nem íris: apenas a escuridão indescritível.

“Sim”, disse ele. “E também o seu nome verdadeiro, Ne…”.

“Nunca este nome”. Uma mão agarrou a garganta do velho, sufocando suas palavras. “Eu nunca mais usarei este nome. Eu estou além dele – melhor do que ele. Aperfeiçoado”.

Gedrin piscou, cansado. A respiração era quase impossível, e também a fala. Ele estava morrendo, ele sabia – uma última amostra de radiância antes do fim. Ele achou que podia ver as faces do Deus Tripartido.

“Onde está ela, Ruína das Sombras?.” Dedos envoltos na escuridão acariciaram sua cabeça. “Onde está ela, a criança que você prometeu me entregar, todos estes anos atrás? Você deve estar com ela.”

Gedrin olhou para o rosto de seu atormentador. Ele não mentiria, nem iria implorar. “Não”.

“Quase oitenta anos, e ainda assim você não a tem?”. A criatura deu um passo para trás, seu rosto dividido por um sorriso louco e cruel. “Vocês homens são todos iguais. Paladino ou assassino, os votos que você faz em nome da honra são apenas vento nos meus ouvidos”.

“Você está errado,” disse Gedrin, mas não conseguia dizer nada além disso. Seu coração batia descompassadamente, e era como se houvesse um cavalo sentado na parte esquerda do seu corpo. Seu tempo havia acabado.

Uma sombra passou entre ele e a luz acima. Seu mundo escureceu.

“Não pense que vai escapar de mim – eu não vou deixar a idade mortal roubar minha vingança”.

Então Kirenkirsalai hesitou.

“Sua espada, Ruína das Sombras”. A voz sem emoção soava agitada. “Seu velho tolo – o que foi que fez com sua espada?”.

Gedrin olhou para os dois pontos de luz em uma das janelas embaçadas de Barthul: o garoto dos olhos brancos. O garoto estava olhando para ele – implorando com ele.

Não implore, Gedrin pensou na direção do garoto. Não tente fugir, como eu fiz.

“Você é um inútil”, disse o homem das sombras, saindo de perto de Gedrin com desprezo. “Um velho patético e arruinado sem nenhuma utilidade. Você está acabado, velho – acabado e morto.”

“Talvez”, Gedrin sussurrou. “Mas ele não”.

“O quê?”, o homem das sombras perguntou. “O velhote delira, quando sua hora chega?”.

“Meu aprendiz”, disse Gedrin. “Meu aprendiz vai continuar o trabalho”.

O homem das sombras riu. “Seu aprendiz foi morto por suas mãos, Ruína das Sombras”. Ele apontou para a pilha de cinzas que havia sido Drovesm. “Ou você esqueceu? Todos se viraram contra você e não lhe restou nada. Você morre como um homem quebrado – uma causa perdida.”

As palavras recaíram nos ouvidos de Gedrin, mas ele mal as ouviu. Ele estava olhando para o garoto dos olhos brancos.

Veremos, pensou ele.

Gedrin sorriu para o garoto, depois olhou de volta para a criatura das sombras de pé diante dele. Havia uma espada em sua mão – uma lâmina longa composta de pura meia-noite. Ele ficou em uma posição delicada e graciosa de ataque, a lâmina sobre o coração de Gedrin.

“Você pode morrer agora, Ruína das Sombras”, disse ele com desprezo, seus olhos negros vívidos cheios de malícia.

Seu coração estava explodindo – ele sentia com se seu peito estivesse desabando dentro de si mesmo. A respiração não vinha, muito menos a fala. Ruína das Sombras fechou os olhos, sabendo que nada poderia fazer – força, espada ou radiância alguma havia sobrado. Apenas a aceitação.

A lâmina entrou no seu peito.

Ele pensou em Sivgena e em seus filhos.

Veio a verdadeira escuridão.



Sobre o Autor

Erik Scott de Bie tem 20 e poucos anos e teve uma variedade de empregos, a maior parte deles de natureza jornalística e/ou administrativa, apesar de alguns serem mais exóticos – domesticar crianças birrentas, apagar incêndios em florestas e duelar amadoristicamente.

Erik viveu na estrada na Espanha por um mês, no metrô de Londres por seis meses, no vale da Califórnia por pelo menos um ano e meio, em uma parte artificialmente verde do Oregon por quatro meses e ele mora, atualmente, no Norte (Seattle, na vida real) com um casal de gatos chamados Apollo e Athena e com um anjo cativo chamado Shelley.

Nas horas vagas, ele anda furtivamente pelas ruas de Londres vestido de preto, ataca os antigos castelos da Escócia e enfrenta franceses pirofágicos em noites quentes às margens do Sena.

Ele já olhou a morte nos belos olhos, venceu seu maior inimigo em nome do amor verdadeiro e ganhou algumas cicatrizes de sabre bem espetaculares (vocês deviam ter visto o outro cara).

O resto do tempo Erik passa escrevendo, jogando RPGs, lendo vorazmente, escrevendo mais ainda, tentando reunir o seu grupo de D&D, atualmente separado, para sessões de jogo de vez em quando, pesquisando segredos arcaicos, invocando demônios e obrigando-os a obedecer suas ordens para utilizá-los contra advogados e pessoas que pronunciam seu nome errado. Neste mês, veja o lançamento de Erik Scott de Bie, Downshadow [Ruína das Sombras].

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