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Histórias
 

Mais Perto do Fim

Descrita por Ricardo Costa.
Baseada no jogo mestrado por Ivan Lira.

Personagens principais da aventura:

Os Humanos: Magnus de Helm [Marckarius Millithor]; Sigel O'Blound (Limiekki) [Dariel Millithor]. Os Elfos: Mikhail Velian [Narcélia Millithor]; Kariel Elkandor [Karelist Millithor]. O Halfling: Bingo Playamundo [Quertus Millithor]. Participação Especial: Storm Mão Argêntea [Ki'Willis Millithor].

Mais Perto do Fim

O Anel Salvador

      Arthos estava paralisado pelo encanto da sacerdotisa drow e três soldados inimigos vinham de encontro à ele, com espadas em punho. O espadachim da Comitiva preparava seu espírito para a dor dos golpes, quando sentiu uma energia percorrer seu corpo. Os guerreiros da Casa Dvaer atacaram e o atingiram três vezes. As lâminas teriam cortado fundo no corpo do aventureiro, se não fosse um encanto liberado pelo invisível Kariel, segundos antes do ataque. A pele de Arthos adquiriu uma resistência extra, tornando-se mais densa e rígida. Era o efeito da magia contida no anel que Storm Mão Argêntea havia entregado ao mago, e que acabava de ser liberada, para a sorte de Arthos.

      Aproveitou o espadachim para concentrar-se e tentar, com sua força de vontade, sobrepujar a magia divina que o prendia. Cerrou os olhos, pensando firmemente em libertar-se. O esforço surtiu resultado e seus movimentos retornaram. Sua primeira atitude foi sacar a Lâmina das Rosas, o seu sabre encantado. Recebeu novamente ataques inimigos que, novamente, não possuíram a força necessária para perfurar sua pele sob o encanto protetor. Porém, diferente da primeira vez que havia sido atacado, pôde, desta vez, revidar. Concentrou seus golpes em um dos guerreiros. Foram três movimentos rápidos: o primeiro foi defendido pela lâmina do oponente, mas a defesa exigiu que o adversário erguesse também a sua arma, deixando a guarda aberta para outros dois golpes, que acertaram em cheio o peito e o pescoço do drow, que tombou em um grito.

      Arthos ouviu outro dos adversários gritar e, em seguida, o amigo Kariel surgiu próximo a ele, com sua espada nas mãos. O mago, que também sabia como manejar uma arma, havia acertado um dos guerreiros e, ao invés de sua magia, usou Goliath, sua espada élfica de família. A sacerdotisa, que observava ao fundo, decidiu agir. Com uma nova prece ao seu deus sombrio, lançou sobre Arthos outro encanto. Desta vez, o guerreiro sentiu uma dor lancinante, como seu corpo repentinamente tivesse sido cortado por dentro. O momento agudo de dor passou, mas o Arthos sentia que havia sido ferido. A sacerdotisa não poderia ficar livre dos combates, ou mais destes sortilégios malignos seriam conjurados, foi o que pensou o espadachim da Comitiva da Fé, quando deixou o soldado que combatia, correndo em direção da drow.

      “Companheiros. Eu e Torrellan estamos em combate! Venham em nosso auxílio!”, pediu Kariel. A voz do mago ecoou nas mentes dos companheiros distantes, graças ao efeito do encanto de comunicação que havia conjurado minutos atrás, e estes deixaram as explorações que faziam para unirem-se a dupla que lutava.

      Enquanto os colegas chegavam, Arthos tentava golpear a sacerdotisa, que se esquivava. Ao mesmo tempo, o espadachim agilmente virava-se para combater o soldado ao qual havia dado as costas. Kariel havia acabado de derrotar o seu adversário, e postou-se para auxiliar o amigo cercado. Sua intervenção forneceu à Arthos a distração suficiente para que este acertasse um golpe preciso, eliminando o guerreiro Aercelt. Só restava agora a sacerdotisa. A fêmea, com muita pressa, tentou conjurar um derradeiro encanto, mas Arthos apontou-lhe a ponta do sabre para o pescoço.

      “Na-na-não...”, disse, balançando negativamente o dedo indicador da mão esquerda e exibindo um sorriso zombeteiro. A drow então cessou seus gestos, resignando-se a derrota. Neste momento chegaram os outros, sala adentro.
      “Vocês têm uma corda?”, pediu Arthos. Non o atendeu, com uma corda branca, feita de leve e resistente seda, produzida por uma espécie particular de aranha, e o ajudou a amarrar a clériga.
      “Diga o que queremos ou morrerá!”, disse Mikhail para a prisioneira.
      “Onde está o portal?”, perguntou Arthos, o que soou um tanto estranho para os ouvidos de Non, que não sabia que este era o objetivo principal dos forasteiros naquele lugar. Porém o drow não fez perguntas e guardou suas dúvidas para um momento mais oportuno.
      “Não sei de portal algum!”, respondeu a drow, destilando ódio em seus olhos vermelhos.
      “E o que há atrás desta porta?”, perguntou Bingo, mostrando uma porta na sala, que Kariel e Arthos não haviam notado no calor da batalha.
      “É uma biblioteca. Vão... devem estar aqui para saquear, aproveitando-se da guerra. Roubem o que quiserem, mas deixem-me ir.”, pediu a cativa.
      “E os aposentos de seu líder?”, questionou Magnus.
      “Nos últimos níveis, mas não viverão o suficiente para explorá-los.”

      Limiekki, em resposta à ousadia da inimiga, aplicou-lhe um soco, fazendo-a cair no chão. A atitude, demasiada violenta para a forma de agir da Comitiva, na verdade foi o artifício do mateiro para manter seu disfarce de drow. Non já estava suficientemente desconfiado da benevolência destes estranhos drows estrangeiros, assim como o mistério envolvendo suas motivações e a própria presença deles na cidade de Maerymidra.

      Os exploradores iam na direção da porta da suposta biblioteca, quando ouviram a sacerdotisa murmurar algo e começar a flutuar. Ela ainda possuía um último artifício e queria fugir. Seu intento foi impedido pelas flechas de Bingo e pelos virotes de bestas de Non, que derrubaram-na do ar. Mikhail examinou a sacerdotisa e ela estava morta. O clérigo encontrou no corpo da mulher um frasco contendo um líquido avermelhado, provavelmente uma poção. Tomou a pequena garrafa e a guardou consigo.

      Finalmente, concentraram-se na próxima entrada. Arthos abriu vagarosamente a porta, que estava destrancada, e olhou por uma fresta. Era uma sala em cujas paredes havia prateleiras de pedra negra, repleta de livros. Havia duas mesas, com alguns tomos abertos sobre elas A drow não havia mentido: era uma biblioteca e estava aparentemente vazia. Arthos entrou e, em seguida, seus companheiros. Da biblioteca, partiam algumas portas, mas o que mais lhes chamou a atenção foi a descoberta da escada para o andar superior, o quarto nível. Kariel pediu que se usassem as mesas para montar uma barricada à frente das portas, sugestão levada a cabo por Limiekki e Magnus que, mesmo com a força que tinham, encontraram alguma dificuldade em mover os pesados móveis, travando duas das novas portas que lá havia. Decidiram subir as escadas. Arthos foi à frente.

O Quarto Nível
-
Aranhas -

      Os degraus davam acesso a um pequeno e estreito corredor, de onde partiam duas portas, localizadas na parede direita. Como não existiam inimigos, os invasores preencheram o cômodo.

      “Trancadas! As duas portas estão trancadas!”, concluiu Arthos após um rápido exame nos puxadores de bronze.
       “Deixa comigo!”, disse Bingo, aproximando-se da primeira porta, com seu pequeno estojo de veludo, contendo ferramentas de arrombador.

De repente, ouviu-se o costumeiro ‘clique’ da fechadura sendo destravada. O pequeno na aparência de drow tentou empurrar a porta, mas ela não abria.

      “Parece que tem algo atrás, prendendo a porta. Ela não quer abrir!”
       “Deixe-me fazer minha tentativa agora!”, disse Magnus, cuja força era admirável.

      O guerreiro arremeteu com força sobre a porta de uma madeira negra e estranha, mas bastante dura e resistente. Mesmo com sua força, não conseguiu abrir. No momento em que faria uma nova tentativa, a outra porta se abriu e seis soldados inimigos saíram de arcos nas mãos, prontos para atacar.

      Arthos e Limiekki agiram rápido. Correram em direção aos adversários, durante os poucos segundos em que estes retesavam as cordas para disparar, e os golpearam com suas lâminas. A ação dos dois foi tão rápida, que, em verdade, somente dois dos arqueiros conseguiram efetuar seus disparos: uma flecha que passou zunindo por sobre a cabeça do afortunado Bingo, indo se estatelar na parede e outra que passou de raspão e rasgou o couro da roupa de Limiekki, tirando um pouco de sangue do seu braço. Após este momento inicial, Magnus, também se aproximou para combater. Como o corredor era bastante estreito, os demais não tinham muito que fazer, a não ser observar. Os soldados da Casa Aercelt não haviam conseguido livrarem-se dos arcos e sacarem suas espadas rapidamente, o que permitiu que o espadachim e o mateiro da Comitiva fizessem grandes estragos e derrubassem logo dois inimigos ao solo. Um batalhava com Magnus, porém o drow enfrentava um oponente muito poderoso, bem além de suas capacidades de mero soldado. Ainda defendeu-se e arriscou alguns golpes com sua espada longa, mas Magnus o decapitou, com um golpe tão poderoso quanto preciso. O paladino, imediatamente, voltou-se para outro oponente. Havia três soldados inimigos vivos e Limiekki, Arthos e Magnus os combatiam. Trocaram alguns golpes, mas a superioridade dos três guerreiros da Comitiva fez a batalha terminar com brevidade.

      Após rápidos segundos, quando respiraram fundo e recuperaram o fôlego, concentraram-se na passagem de onde haviam saído os drows. A porta de madeira negra e ferragens de bronze esverdeado estava trancada e Bingo tentava abri-la, enfiando pelo buraco da fechadura suas pequenas ferramentas. O pequeno conseguiu e afastou a folha de madeira vagarosamente, colocando a cabeça pela fresta, para dar uma espiada no que havia lá dentro. Duas flechas zumbiram e atingiram a porta, bem perto de seus olhos, o que fez Bingo fechar imediatamente o cômodo, assustado.

      “O que foi, Quertus?”, perguntou Arthos.
       “Quase que tomo duas flechadas na cabeça!”, respondeu arfando o halfling em pele de drow.
       “Viu alguma coisa?”, quis saber Magnus.
       “Bem... a sala estava pouco iluminada, mas vi muitas sombras. Parecia haver muitos inimigos protegidos atrás de móveis ou barricadas... estão esperando pra atacar quem passar por esta porta!”
      “Acho que devemos aumentar nosso poder de fogo!”, disse Arthos, olhando para Kariel com um pequeno sorriso. O mago já sabia o que o amigo queria sugerir e respondeu.
       “Entrarei invisível e conjurarei um encanto. Isto deve enfraquecer os soldados Em seguida vocês devem entrar para combatê-los”, colocou o mago, em um plano.

      Kariel tocou o seu elmo e desapareceu. Abriu uma fresta na porta e uma nova saraivada de flechas foi disparada. Aguardou os disparos cessarem e adentrou o mais silenciosamente possível. Era uma sala quadrada, quase que totalmente escura, se não fosse uma tocha solitária e fraca chama púrpura presa à parede esquerda. Observou as silhuetas dos inimigos ocultos atrás de obstáculos e móveis na parede oposta, muitos deles portavam arcos e aguardavam somente enxergar o corpo de um inimigo para enchê-lo de flechas. O arcano da Comitiva então se concentrou e lançou um feitiço, conjurado sem palavras ou gestos, graças à uma dádiva da deusa Mystra. Em um instante, partiu das suas uma esfera flamejante, que voou no espaço da sala, indo explodir em meio às barricadas dos drows, fazendo os obstáculos de madeira incendiarem e gritos preencherem o ar. Kariel estava novamente visível e seus companheiros começavam a entrar pela sala.

      O primeiro foi Arthos. O espadachim correu em direção do local onde Kariel havia arremessado a esfera de chamas. Haviam alguns guerreiros feridos, tentando se recompor e um sacerdote, que começava a invocar uma prece. Arthos o interrompeu, desferindo três golpes rápidos e perfeitos: atingiu-lhe os flancos e por final perfurou o peito do clérigo, que caiu morto. Sua audácia lhe custou duas flechas vindas das barricadas feitas com mesas, armários e pedras, que acertaram seu corpo. Mas, como estava protegido ainda pelo encanto liberado pelo anel fornecido por Storm Mão Argentea, os projéteis o atingiram sem perfurá-lo, caindo no chão inofensivamente. Um drow, com trajes de guerreiro, rosto oculto por um capuz e portando uma espada de duas mãos partiu em direção ao aventureiro da Comitiva. Acertou-lhe um golpe tão forte que, mesmo com a proteção arcana que agia sobre Arthos, promoveu um corte na altura do braço. Outro guerreiro próximo tentou atingi-lo, mas sem sucesso.

      Limiekki entrou logo após Arthos, e deslocou-se para combater um grupo de três drows. Um deles vestia também roupas de sacerdote. Enquanto o mateiro trocava golpes com dois soldados armados com sabres e cotas de malha, o clérigo de Vhaeraun o tocou levemente com sua mão, e pronunciou algo. Imediatamente, Limiekki sentiu todo seu corpo arder e gritou. A dor passou, mas o fez sentir-se e mais fraco, fazendo-o errar seus golpes.

      Após os confrontos iniciais de Arthos e Limiekki, o conflito generalizou-se com a entrada do restante dos infiltrados na sala.  Agora se podia ter finalmente uma idéia mais clara da quantidade de inimigos contra os quais lutavam. Arthos combatia dois drows guerreiros. Limiekki enfrentava um sacerdote e dois soldados, e Magnus e Non batalhavam, cada um, contra um guerreiro da Casa Aercelt. No chão, havia três cadáveres de inimigos, um abatido por Arthos e dois vítimas do feitiço letal conjurado momentos antes. Entretanto, podia haver outros ocultos nas sombras que havia naquela sala.

      No cenário do combate, Mikhail e Kariel resolveram aguardar e interferir se achassem necessário, enquanto Bingo ficou com seu arco em punho, mas com o combate franco que se desenrolava, sabia que teria poucas oportunidades de atacar sem o risco de atingir um de seus aliados.

      O drow que Magnus combatia não era tão amador quanto o que havia vencido momentos atrás. Além de defender diversos golpes de Hadryllis, a espada do paladino, encaixou alguns ataques de sucesso que esbarraram na armadura do guerreiro, o que não o impediu de sentir a dor do impacto. Magnus tentou um revide imediato, mas o esquivo adversário fez com que o golpe poderoso passasse no vazio. O inimigo tentou um golpe lateral e alto, visivelmente tentando decapitar o guerreiro da Comitiva, mas este provou que, apesar de seu tamanho e o peso de sua armadura, podia ser ágil. Agachou-se e, ao levantar, perfurou o drow com a sua lâmina sagrada, derrubando-o ao solo.

      Non travava um combate equilibrado. Evitava os golpes do inimigo com sua agilidade, ora dobrando seu corpo, ora recuando. Também tentou tomar a ofensiva, mas encontrou um inimigo tão esquivo quanto ele, e talvez mais preparado. O soldado da casa Aercelt perfurou-lhe o ombro esquerdo com a ponta de sua espada. Fosse a estocada centímetros mais baixo, talvez o drow aliado da Comitiva estivesse morto. Non assustou-se com a resistência e decidiu ser mais agressivo. Avançou sobre seu adversário, com diversos golpes, rápidos e fortes, fazendo recuar alguns passos. Em seguida, propositalmente, deixou o flanco esquerdo desprotegido, pensando em um truque. O inimigo, no afã de acertar o invasor, tentou o coração de Non, que se esquivou e aproveitou os segundos em que a guarda do adversário estava aberta, cortando-lhe no pescoço, em um golpe fatal.

      Mikhail e Kariel, que até então observavam, resolveram agir, de maneiras diferentes. O clérigo de Mystra aproveitou-se que Non batalhava e aproximou-se de Bingo. Rezou para sua deusa e tocou o corpo do pequeno que estava próximo. Bingo sentiu suas feridas e arranhões se fecharem milagrosamente. Kariel avaliou que seria melhor poupar seus encantos para adversários mais valorosos e sacou sua espada encantada. Aproximou-se de Limiekki, equilibrando um pouco mais a desvantagem do mateiro.

      Limiekki, que lutava agora ao lado de Kariel, não estava com sorte. Errava muitas das suas investidas e o sacerdote que o combatia acabava de curar, com uma prece, os ferimentos de um dos guerreiros inimigos. Kariel também enfrentava problemas. O outro soldado deslocou-se rapidamente em um salto, e atingiu o mago nas costas com a espada longa. O ferimento poderia ser profundo e grave, se também não tivesse o mago protegido pelo mesmo tipo de magia que agia sobre Arthos. Porém a dupla reagiu aos reveses. Limiekki concentrou seus ataques no sacerdote, a fim de evitar que o mesmo curasse novamente seus aliados, ou lançasse algum encanto perverso. O mateiro, com golpes rápidos de faca e do machado que empunhava, rasgou o couro rígido da roupa do clérigo de Vhaeraun, na altura do ventre. O inimigo olhou para seu carrasco pela última vez, e caiu morto. Já Kariel voltou-se rapidamente para trás e atacou seu traiçoeiro adversário. O mago defendeu-se de novas investidas com sucesso e conseguiu atingir o guerreiro, que já se encontrava combalido por ferimentos feitos pelo fogo mágico, poucos minutos atrás, matando-o. Contra os dois agora só havia um drow que, ao invés de intimidar-se, partiu para o ataque. Tentou atingir Kariel, mas antes que isto ocorresse, Limiekki encravou a lamina do seu machado nas costas do adversário, encerrando aquele combate.

      Agora, somente Arthos combatia. Já havia derrubado um dos guerreiros e só havia um em sua frente, um que mostrava-se mais habilidoso do que os demais. O espadachim foi acertado algumas vezes, o que fez sua proteção mística fatigar e desaparecer. O paladino Magnus chegou para ajudar o amigo, mas quando viu a atenção em que os dois se olhavam, percebeu imediatamente que não se tratava mais de um simples combate, mas de um duelo. Afastou-se e pediu que os colegas esperassem o final da luta.

      “Qual é o seu nome?”, perguntou o guerreiro da Casa Aercelt.
       “Torrellan Millithor!”, respondeu Arthos, usando o seu nome falso.
       “Você é bom e seu estilo é bem diverso! Meu nome é Theryon Aercelt. Será desafiador derrotá-lo!”

      Dito isto, o guerreiro avançou para Arthos com sua enorme espada, tentando dois golpes. Um, dado de cima para baixo, foi defendido por Arthos, que colocou o aço de seu sabre horizontalmente, protegendo o peito. O outro, uma violenta investida visando o flanco esquerdo, foi esquivada com um salto para trás do espadachim. Arthos então contra atacou, saltando mais uma vez, agora para frente, com o sabre em riste. Seu primeiro golpe foi defendido pela larga lâmina do adversário. O segundo cortou-lhe a mão esquerda, em um talho profundo. O terceiro foi uma estocada, no abdômen do adversário, que caiu ao solo, agonizando.

      Arthos agachou-se e tomou a bela espada, derrubada ao chão, do inimigo que ainda se mexia, contorcendo-se de dor.

      “Torrelan...”, disse Kariel, “... esta espada emana magia e pode ser perniciosa!”

      O espadachim ergueu-se do chão e, após olhar alguns segundos para a arma e para seu inimigo, desferiu um golpe de misericórdia, cravando a lâmina no corpo do infeliz drow Aercelt.

      Terminado o combate, as atenções dos aventureiros voltaram-se para aquela sala. Haviam duas portas para outros cômodos, na parede oposta à entrada. Bingo aproximou-se de uma delas e, constatando que estava trancada, mais uma vez, enfiou as pequenas ferramentas no buraco da fechadura. A porta abriu-se, revelando-se um quarto, que estava bastante revirado. Provavelmente, havia sido daqui que os móveis que estavam nas barricadas foram retirados. Como nada de interessante foi encontrado, a outra porta foi sondada. Bingo também a abriu. Era outro dormitório, de condições parecidas como o último, porém este possuía uma porta dupla de saída, na parede esquerda.

      “Este lugar tem tantas passagens que mais parece um labirinto!”, exclamou Limiekki, enquanto coçava a cabeça.
       “Lembrem-se: estamos no quarto andar e a partir daqui temos que verificar os cômodos com cuidado. O que procuramos pode estar em qualquer lugar!”, falou Kariel, pensando no portal mágico que buscavam.

      Bingo abriu a porta no fundo do quarto e em instantes estavam todos em um outro corredor estreito. Na parede onde estava a porta de onde acabaram de passar, havia outra à esquerda. Uma porta de folha dupla na parede à frente e outra na parede direita.

      “E agora? Mais três portas!”, disse Bingo.
       “Podíamos nos dividir!”, sugeriu Arthos.
       “Uma divisão nos tornaria mais fracos!’, opinou Magnus.
       “Por enquanto, acho melhor estarmos juntos”, completou Mikhail
       “Bem. Então vamos escolher uma porta... humm... a da direita!”, disse Bingo, já se movimentando para a porta de folha dupla de madeira negra e bronze esverdeado.

      Quando Bingo avisou que a porta estava aberta, Kariel pediu para ser o primeiro a entrar. O mago usaria mais uma vez seu elmo da invisibilidade para explorar o aposento antes de seus amigos. Abriu a porta devagar e entrou. Era uma sala de tamanho médio, sem móveis ou pessoas, com um poço circular que emanava uma luz amarela, da mesma maneira do que havia visto no primeiro andar. Era mais um levitador mágico. Havia uma porta ao fundo da sala. Pela dimensão do cômodo e o posicionamento da porta, o arcano achou que provavelmente seria a sala que tentavam abrir quando chegaram ao andar onde estavam e foram interrompidos pelos drows arqueiros. Kariel então retornou aos companheiros que aguardavam o resultado da exploração.

      “Existe um levitador mágico no centro da próxima sala, mas a passagem para o nível superior está bloqueada por uma grade no teto. Acho que devemos explorar as portas daqui antes.”
      “Então vamos logo...”, disse o impaciente Bingo, movendo-se para a outra porta dupla.

      Como as outras, a tranca se abriu. E foi Arthos que puxou uma das folhas da porta cautelosamente. Da fresta, saíram aranhas, muitas aranhas. Bingo teve que se segurar para não dar um pulo de susto e voltar agir como um drow crente a Lolth, a Rainha Aranha.

      “Aranhas!”, exclamou Arthos, abrindo completamente a porta.
       “Centenas... milhares de aranhas!”, completou Limiekki.

      O chão da sala escura estava preenchido com aranhas de todos os tipos e tamanhos, desde pequenas como um grão de arroz a outras do tamanho de um cão. Havia uma porta do outro lado.

      “Os seguidores de Vhaerun devem ter capturado estas aranhas para nos chantagear ou nos aviltar!”, disse Non, indignado.
       “E a porta? Como fazemos para chegar até lá?”, perguntou Bingo.
       “Se formos, poderemos pisar por acidente em alguma destas aranhas!”, colocou Kariel, que havia lido em um dos livros dos Millithor que a pena dos adoradores de Lolth para quem matasse uma aranha era a nada menos do que a morte.
       “Podemos deixar a porta aberta, até que todas as aranhas saiam!”, sugeriu Mikhail.
       “Não podemos fazer isto. Se elas se espalharem pelo castelo, podem ser mortas pelos Aercelt!”, respondeu Non.
     “Então vamos deixá-las aí, por enquanto. Quando o perigo terminar, as libertaremos! Ainda há uma porta para verificarmos!”, colocou, prático, Magnus.

      Os aventureiros concordaram, apesar da maioria, secretamente, preferir pisar naquelas criaturas e seguir adiante, e fecharam a porta dupla. Foram até a última porta que restava para ser aberta e esta não estava trancada. Assim que empurraram a folha de madeira, vislumbraram uma nova escada, rumo ao quinto piso do castelo. Subiram o lance de degraus estreitos e encontraram um patamar que deixou os exploradores de frente a uma nova porta, que iniciava o próximo andar do Castelo Maerymidra.

Quinto nível
-
Batalhas, Portas e Crianças -

      A porta foi aberta. A passagem mostrava a parede de uma passagem em forma de 'U' que se dobrava para uma nova sala. Kariel, que já era o batedor usual, estava à frente. Seus ouvidos élficos captaram ruídos vindo do novo e ainda oculto cômodo. Um cheiro de comida se espalhava pelo ar.

      “Ouvi passos e grunhidos... parecia um animal, um touro... sim... era como o ruído dos homens-touro que vimos quando estávamos na cidade”, descreveu o mago, ainda invisível.
       “Minotauros!”, exclamou Arthos.
       “Atraia estes monstros para cá, Karelist!”, sugeriu o guerreiro Magnus. “O espaço após a escada é mais estreito e eles terão dificuldades devido ao tamanho!”.

      O mago concordou e adentrou a sala. Era uma espécie de refeitório. Em um fogão, um caldeirão negro fervia. Em duas mesas retangulares, sentavam-se dois minotauros. Havia prateleiras com frascos diversos. Kariel aproximou-se mais e pôde ver uma porta na parede oposta. Atendendo o pedido de Magnus, o arcano da Comitiva tomou um pote de barro e o arremessou na direção da escada. Imediatamente, os dois homens-fera deixaram seu jantar e caminharam para tentar descobrir que barulho tinha sido a aquele.

      O primeiro minotauro, apesar de enorme (devia ter cerca de dois metros e vinte) e do curto espaço, ao ver o estranho ‘drow’ guerreiro em sua frente, bufou e manuseou seu grande machado, golpeando o paladino de uma maneira tão violenta, que o desequilibrou, jogando-o de encontro à parede. Magnus sentiu o pesado ataque, que atingiu seu flanco esquerdo, mas não chegou a cair. Logo pôs-se novamente em posição de ataque e, em um movimento debaixo para cima, abriu o peito do homem-touro com a lâmina de sua Hadryllis, O monstro caiu moribundo.

      O outro se aproximou, e recebeu golpes violentos e rápidos nos joelhos, vindo das lâminas ágeis de Limiekki. O mateiro tomou em retorno um potente empurrão, que quase o fez cair escada abaixo, por cima dos companheiros que aguardavam o desenlace do combate sem poder agir. Mas Tymora, a Deusa da sorte e dos aventureiros, talvez tenha sorrido para Limiekki. Os ferimentos que causara no monstro foram tão profundos que este caiu para trás, gritando de dor, impedindo um outro ataque mais mortal. Magnus eliminou o ruído, com a sua lâmina sagrada.

      “Marckarius... vi que recebeu um ataque forte do monstro... você está bem?”, disse Kariel, ainda invisível.
       “Minha armadura protegeu-me, Karelist. Sinto algumas dores por debaixo dela, mas nada que me impeça de continuar”, respondeu o guerreiro.

      Mais uma porta trancada e mais uma tranca aberta pela perícia de Bingo. Kariel colocou a cabeça para enxergar o novo cômodo. Era uma sala vazia, com duas portas duplas, uma à esquerda e outra à frente. No centro, um dos levitadores mágicos, provavelmente a continuação do que existia no andar inferior. O mago invisível alertou que não parecia haver perigos, e então os companheiros entraram. Mikhail, Arthos e Magnus chegaram por último. Haviam atrasado o passo a pedido de Mikhail, que usou secretamente uma das suas magias divinas para curar parte dos ferimentos dos amigos.

      “Duas portas! Assim vamos passar a eternidade neste lugar!”, comentou Limiekki, impaciente. O mateiro não se sentia muito à vontade em espaços fechados e a exploração do castelo já começava a lhe dar nos nervos.

      Bingo se dirigiu à porta dupla oposta e Arthos foi com ele. O pequeno em forma de drow abriu a porta, enquanto os outros, de prontidão, aguardavam. Apesar de terem conduzido o arrombamento e aberto a porta de maneira silenciosa, pela fresta estreita podiam ver que outros dois minotauros, que estavam na nova sala, haviam percebido o arrombamento, e corriam com seus imensos machados para matar os invasores. Puderam ver também um sentinela drow, que estava parado, de pé, diante de uma porta. Havia uma outra, mas esta não estava guardada.

      “Wow! Precisamos de ajuda aqui!”, exclamou Bingo, ao ver os dois imensos oponentes que vinham em sua direção.

      Magnus, um dos que estavam mais próximos, tomou a frente do seu amigo halfling, bem no instante em que a bestial criatura aproximava-se com um machado quase do tamanho do próprio Bingo. O paladino segurou firme o cabo de sua espada e a adrenalina que corria em seu sangue ao ver o seu pequeno amigo ameaçado fez sua força crescer ainda mais. Antes que o homem-fera atacasse, desferiu um golpe tão potente e preciso que cortou fora a cabeça de touro da criatura. O outro inimigo, ao ver a cena, hesitou e parou imediatamente.

      “Vamos, besta infernal! Ataque-o!”, ordenava o drow, que permanecia guardando a porta.

      O monstro ouviu as palavras e olhou para os inimigos. Sua coragem havia terminado ao ver seu companheiro morrer tão rápido. Não atacou. Apenas se aproximou do drow que o comandava, com o machado para baixo, resignando-se.

      “Maldito. Se é covarde para atacar, ajude-me aqui!”, ordenou o sentinela, que permanecia a frente da porta, de sabre em punho. O minotauro tomou a sua frente. “Quem são vocês e o que querem?”.
       “Onde está Malakar?”, perguntou Magnus.
       “Em algum lugar nos níveis superiores. Não precisam vir aqui”, respondeu o elfo negro, enquanto os aventureiros se posicionavam ao seu redor.
       “O que há atrás desta porta, que defende com tanta prontidão?”, perguntou Mikhail.
       “Apenas um quarto, sem nada de valor para vocês! Continuem... não precisam passar por aqui!”, disse o guerreiro, com veemência.
       “Não sei o que esconde, mas vamos passar assim mesmo!”, disse Limiekki.

      O mateiro avançou, mas o minotauro que o defendia o atacou com um golpe de machado, defendido oportunamente pela força e lâmina de Magnus. O drow da casa Aercelt também investiu contra os invasores de seu Castelo e tentou ferir Arthos. Um combate desequilibrado e rápido se desenrolou. O minotauro foi atacado por Magnus, Mikhail e Non, e o guerreiro inimigo, por Limiekki e Arthos. Kariel e Bingo, que estavam um pouco mais recuados, se aproximaram, mas não se engajaram na luta. O minotauro morreu poucos segundos depois, cortado profundamente pelas lâminas adversárias. O sentinela teve sua espada arrancada das mãos, graças a uma primorosa demonstração de habilidade em esgrima de Arthos. Limiekki ia lançar mão de um golpe mortal, quando Kariel gritou:

      “Não o mate, Dariel!”

      O guerreiro deteve a mão direita que carregava o machado, enquanto Magnus aproximou-se do inimigo e usou a força de seus músculos para imobilizá-lo.

      “Vermes! Filhos de uma deusa vadia e covarde! Morrerão antes de saírem daqui!”, insultava o drow, agitando-se na vã tentativa de escapar dos braços poderosos de Magnus.
       “Ora... matem-no de uma vez! Veja o que ele está falando! Blasfemador! Vou dar cabo deste imundo!”, respondeu indignado, Non, que sacou sua espada e partiu para exterminar o inimigo. Neste momento, Mikhail e Arthos interfiram, impedindo o drow de avançar.
       “Porque vocês toleram isto? Não consigo compreender!”, continuou Non.
       “Posso extrair informações dele, mas só posso fazê-lo se ele estiver vivo!”, disse Kariel.

      O mago fitou o sentinela e fechou os olhos por apenas um segundo. Neste rápido momento, sua mente foi preenchida de pensamentos e imagens que não eram suas. Percebeu algo que se repetia, entre as muitas coisas que passavam velozes na cabeça do drow.

      “Crianças... ele pensa em crianças!”, disse Kariel, depois do segundo rápido.
       “Crianças? Vamos averiguar!”

      Magnus retirou o guerreiro inimigo, que continuava debatendo-se desesperadamente e praguejando, da frente da porta. Bingo a destrancou e Mikhail a abriu vagarosamente. Os aventureiros puderam ver num dormitório coletivo, várias crianças, meninos e meninas drows, que se aglomeravam na parede oposta do aposento. Alguns deles choravam.

      “Não executo meus serviços pela metade!”, falou Non, retirando, de uma bolsa que carregava, um frasco. Ia atirar dentro da sala, quando Kariel, que estava próximo, agarrou seu braço, impedindo a ação.
       “O quê? O que estão fazendo? Este é o futuro da Casa Aercelt! Temos que matar a prole do inimigo!”, vociferou Non.
       “Não vamos matá-los, nem desperdiçar tempo e armamento com crianças!”, disse Mikhail.
       “Temos um objetivo principal: destruir os líderes da Casa Aercelt. Devemos deixar questões menores para depois!”, completou Kariel.
      “Vocês estão agindo de uma maneira muito estranha...”, disse Non, olhando desconfiado para os aliados e lentamente devolvendo o frasco para a bolsa. “Espero descobrir o porquê!”

      Limiekki e Magnus resolveram amarrar o guerreiro que guardava a porta e colocá-lo no quarto, junto com os pequenos drows. Bingo usou as suas ferramentas, desta vez, para trancar o sentinela e as crianças no cômodo. Seguiram para a última porta a ser aberta naquela sala. Ela não estava trancada. Era um quarto, um aposento luxuoso, com tapeçaria, cama, armários, cabideiros com roupas penduradas e prateleira com livros, sendo que um deles encontrava-se aberto em uma mesa circular para estudo. Kariel aproximou-se e leu algumas linhas do tomo.

      “O livro descreve rituais mágicos. Provavelmente o dono deste quarto era um aprendiz da Arte!”
      “Acho que você tem razão, Karelist! Descobri uns robes de mago no guarda-roupa!”, conformou Arthos, que também investigou o local.
      “Acho que acabamos por aqui. Vamos verificar a porta que deixamos na sala do levitador! Ainda temos que encontrar a escada”, colocou Mikhail.

      Kariel antes de deixar o quarto, concentrou-se à procura de algum objeto que emanasse magia. Percebeu então que uma capa pendurada emitia uma irradiação mágica. Não queria gastar tempo pesquisando as propriedades mágicas do objeto, e resolveu guardar a capa negra de um tecido leve como seda na mochila que levava nas costas.

      Foram até a sala do levitador e abriram, sem necessidade de arrombamentos, a porta que restava fechada. Encontraram um estreito corredor. Do lado esquerdo, existia uma porta, toda ela feita em metal. Alguns metros à frente, o corredor terminava na procurada escada. Os exploradores resolveram abrir a porta derradeira e Bingo mais uma vez aproximou-se. O pequeno era bom na arte de abrir trancas, mas desta vez encontrou dificuldade. Tentou uma, duas, três vezes com diversas das pequenas ferramentas, até que ouviu-se um estalo. Não era bem o estalo que Bingo queria ouvir.

      “Err... pessoal... desculpe, mas acho que a tranca quebrou! Esta fechadura é bem forte!”, disse Bingo, desconcertado.
       “Deixe-me tentar!”, disse o robusto Magnus.

      O paladino arremessou-se contra a porta três vezes. Na última das tentativas, contou com a ajuda extra de Limiekki, mas o metal não cedeu.

      “Com a largura estreita este corredor, não tenho como tomar mais impulso, ou usar algo como aríete!”, disse o paladino, após balançar negativamente a cabeça. “Não acredito que consigamos abri-la a força”.
      “Vamos prosseguir. A escada está logo adiante. Depois retornaremos para averiguar estar porta”, sugeriu Mikhail. E assim os aventureiros encaminharam-se para a escada.

Sexto Nível
-
Olhos Observadores -

      Após galgarem os degraus largos da escada, o grupo encontrou uma ampla ante-sala e nela uma porta bastante larga e alta. O grupo se posicionou e Bingo abriu a tranca. Kariel, invisível, adentrou o mais silenciosamente possível.

      O que Kariel viu ao entrar era uma sala enorme, de formato quase semicircular. Devia ter cerca de trinta metros de largura, talvez mais. O elfo não soube precisar, pois a luz violeta que iluminava o lugar e que partia de um lustre no centro do teto era fraca demais para eliminar todas as sombras. Havia também uma escada em espiral, próximo de onde o mago estava e mais alguns cômodos com portas, todos do seu lado esquerdo. Kariel avançou um pouco mais rumo ao centro do salão. Foi quando viu duas estranhas silhuetas esféricas. Seu coração bateu mais forte. Não conseguia ainda ver, mas imaginava o tipo de criatura que iria encontrar. Os dois seres, que patrulhavam o lugar, moviam-se silenciosamente. Um deles deslocou-se próximo o suficiente da luz para clarear-lhe as formas. Era um monstro esférico flutuante, com um olho enorme e uma bocarra cheia de dentes pontiagudos. Do seu corpo esverdeado saiam tentáculos que, em cada extremidade, possuíam um outro olho menor. Parecia ser um beholder.

      Kariel sabia dos poderes de tais criaturas. Estes beholderes eram muito menores do que os que já havia combatido, mas nem por isto deviam ser menos perigosos, era o que prudentemente pensava o mago. Sozinho, seria presa fácil para os feitiços lançados pelos olhos dos monstros. Decidiu retornar para comunicar seus amigos, pisando cautelosamente no chão liso de pedra negra.

      Apesar do cuidado do mago, o monstro virou-se para a posição onde estava o invasor e um de seus tentáculos apontou para Kariel. O arcano da Comitiva da Fé sentiu uma energia percorrer seu corpo e desaparecer em seguida, com ela, o encanto que o fazia seu corpo mais resistente a ataques também se foi. Em seguida, ouviu a criatura murmurar algo para o seu companheiro monstruoso, em uma língua desconhecida e de som detestável.

      As criaturas se aproximavam e Kariel resolveu tomar uma atitude. Usou um de seus encantos especiais, que não exigiam gestos, palavras ou componentes materiais, e fez surgir uma ilusão no outro lado da sala. Era um grupo barulhento de guerreiros bárbaros, como os que havia visto no Vale do Vento Gélido, que exibiam suas armas e gritavam. Os monstros voltaram a atenção para o truque e dispararam raios e encantos vindo dos seus olhos contra a imagem. Foi a distração que Kariel queria para deixar a sala e voltar para o cômodo anterior, onde estavam seus amigos.

      “Karelist? O que houve? Ouvimos um barulho...”, perguntou Magnus ao ver a porta se abrir.
       “Beholderes! Atrás desta porta há um grande salão e dois beholderes o patrulham!”, disse o invisível Kariel para seus companheiros, fechando a porta atrás de si. “São monstros pequenos, têm cerca de um metro e trinta de largura,... uma espécie bem menor comparada às que já combati em outras situações. Consegui uma distração para retornar!”
      “Estas criaturas são perigosas... seus olhos emitem magias e raios de diversos efeitos!”, falou Arthos, que, em um dia distante, já havia sido transformado por uma magia em um monstro semelhante.
       “Acho que a melhor maneira de enfrentarmos este tipo de inimigo e nos espalhando e atacando de vários lados. Deve ser um ataque fulminante”, planejou Magnus.
       “Karelist... pode atrair a atenção destas criaturas mais uma vez, para que não sejamos atacados logo ao entrar?”, perguntou Arthos.
      “Sim... tenho um encantamento sonoro que pode ajudar a desviar a atenção”, respondeu Kariel.
       “Assim que ouvirmos o barulho, entraremos!”, concluiu Mikhail.

      Com o plano esboçado, Kariel, entrou novamente na sala e caminhou até as proximidades da escada em espiral que subia, alguns metros à frente da porta de onde acabara de sair. Os beholderes, que na verdade eram ghaunts, primos menores dos olhos tiranos, voltaram-se na direção de Kariel. O mago conjurou outro encanto, e uma explosão foi ouvida no fundo da sala. Os monstros seguiram para averiguar. Foi a deixa para os heróis avançarem.

      Limiekki foi quem saiu primeiro da porta. Correu e resolveu subir a escada em espiral. Retirou com velocidade um arco curto das costas e disparou contra um dos ghaunts, encravando duas flechas no corpo esférico. Logo depois, Arthos correu, com o sabre em punho, em direção do monstro. O espadachim ainda aproveitou-se da confusão das criaturas e aplicou três golpes rápidos e eficientes, abrindo uma profunda fenda no gauth que já havia sido ferido por Limiekki. Magnus, o guerreiro mais poderoso da Comitiva, avançou com sua Hadryllis, com a intenção de desferir o golpe que daria cabo daquela criatura, mas o inimigo foi mais rápido. O gauth, que ainda não havia sido atacado, atingiu o paladino com um raio que partiu de seu olho central, o deixando paralisado, tal qual uma estátua. O monstro aproximou-se e disparou um outro raio, desta vez de um de seus olhos menores, que ficavam nas pontas dos tentáculos que saíam de sua cabeça-corpo. Magnus sentiu sua armadura esquentar e sua pele queimar por alguns segundos. Em seguida o gauth, já assustadoramente próximo, abriu sua bocarra e mordeu Magnus pelo tronco. Graças a Helm, sua armadura foi resistente o suficiente para não ser trespassada, pelo menos desta vez, pelos dentes agudos do horrendo ser.

      O gauth próximo a Arthos estava a beira da morte e atirava raios a esmo na direção dos invasores. Um deles acertou Limiekki, que sentiu seu corpo pesar e o ar faltar, como se tivesse acabado de correr quilômetros. Outro atingiu Magnus, causando-lhe mais ferimentos por queimadura e, um outro, tornou Kariel visível novamente. Non e Bingo entraram na sala, com sua besta e arco nas mãos. Miraram os inimigos, mas não ousaram um disparo. Um erro e poderiam acertar seus companheiros.

      Mikhail e Kariel recorreram então aos seus encantamentos. O primeiro recitou em voz baixa uma prece à deusa Mystra e uma coluna de chamas surgiu engolfando o monstro que ameaçava Magnus. O gauth emitiu um grito em meio à torrente de fogo e caiu ao chão pesadamente, como um fruto maduro demais que despenca de uma árvore alta. Por sorte, em meio à agitação, Non não percebeu que foi Mikhail, ou melhor, a sacerdotisa Narcélia, que havia conjurado o encanto. Pensava ser obra do mago Karelist e que Narcélia não poderia invocar os poderes divinos da Deusa Aranha, devido ao seu súbito desaparecimento. Kariel lançou também sua magia, e fez surgir, a partir de suas mãos, uma esfera de fogo, que explodiu próximo ao segundo gauth, fazendo-o cair instantaneamente morto a alguns metros de Arthos.

      Os aventureiros pararam um minuto para respirar. Limiekki e Magnus ainda estavam sobre o efeito dos encantamentos dos gauths, mas Kariel tranqüilizou os colegas, dizendo que se esperassem algum tempo, os dois voltariam ao normal. Entre todos, Magnus foi quem mais havia se ferido. O paladino apresentava algumas dolorosas queimaduras embaixo da armadura, além de ferimentos anteriores. Kariel chamou Non para explorar a porta de uma das quatro que havia na sala. O chamado tinha também o objetivo de afastar o drow, deixando Mikhail livre para usar seus poderes curativos. Bingo também fez a mesma coisa em uma outra porta.

      Kariel e Non abriram a folha de madeira e bronze, que não estava trancada, e encontraram um pequeno cômodo, de cerca de três metros quadrados. No centro dele, outro levitador mágico. Observaram que havia uma abertura circular no teto acima, desimpedida de grades ou obstáculos. Poderiam usá-la para alcançar o andar superior, se desejassem. O mago, no entanto, acho prudente esperar e deixaram o quarto.

      Já Bingo, usando suas técnicas e ferramentas, abriu a porta de um luxuoso quarto, com belos móveis de madeira negra e tapetes de seda branca. Haviam algumas vestes decoradas, talvez de um sacerdote, e uma grande máscara púrpura na parede. Não havia nada de valor ou diferente o suficiente para atrair a atenção do halfling, que fechou novamente o cômodo.

      A terceira porta foi aberta por Arthos, que tinha a companhia de Magnus. O efeito do encanto que paralisava o paladino havia passado e Mikhail já havia aplicado a cura divina, restaurando-lhe em grande parte a saúde e curando-lhe as feridas. Os dois guerreiros encontraram uma sala repleta de armas, escudos e armaduras.

      Limiekki, que ainda sentia os efeitos do cansaço mágico a que estava submetido, aproximou-se da última porta não aberta do aposento. Não teve dificuldades em abri-la, mas nada encontrou, a não ser pedaços de móveis e outros objetos quebrados.

      Mikhail andou pela grande dimensão do salão. Viu grandes bancos, como os de um templo, postos de lado e um altar próximo à parede mais distante da entrada. Havia uma estátua de cerca de um metro e meio sobre ele. Era a imagem colorida de um drow esguio e mascarado, com uma expressão de fúria e cabelos pintados de vermelho, que segurava uma espada curta. Devagar, Non, Kariel e Limiekki, que haviam terminado suas explorações, aproximaram-se do clérigo de Mystra.

      “Vhaeraun! Os Aercelt converteram um templo a Lolth ao seu deus maldito!”, praguejou Non ao ver a figura sobre o altar.
      “Vi alguns pedaços de algo que parecia uma imagem, em um pequeno depósito que encontrei... devia ser uma imagem de Lolth!”
      “Vamos derrubar este usurpador, que profanou este templo!”, comandou Mikhail, interpretando seu papel de sacerdotisa de Lolth. Juntos, os quatro empurraram a imagem, que caiu ao chão, espatifando-se em muitos pedaços.
      “Agora falta algo... Dariel ... mostre-me o depósito que mencionou. Non...venha comigo.”, pediu Kariel.
      “O que pensa em fazer, mago!”, questionou o drow da Casa Dvaer.
      “Venha comigo!”, disse Kariel apenas.

      Os três foram até o pequeno cômodo, cheio de entulho. O mago começou a procurar e a retirar pedaços da estátua de Lolth e separá-los em um espaço próximo, sob os olhares dos dois aliados.

      “O que vai fazer com isto?”, questionou Non, já impaciente.
      “Recolocá-los no lugar de direito!”, respondeu Kariel.
      “Repor a imagem de Lolth neste estado seria até uma blasfêmia. Espero que abandone esta idéia estranha!”, disse o drow, em tom de desaprovação.
      “Espere...”, respondeu o arcano, que começou a realizar alguns gestos e articular palavras místicas. Os pedaços se moveram rapidamente, procurando o melhor encaixe possível e remontaram a estátua de uma drow de belas formas, sem que nenhuma rachadura ou mesmo arranhão pudesse ser notado. “Sim... vamos recolocar Lolth no seu devido lugar!”
      “Magnífico, Karelist!”, exclamou Non, impressionado.

      Então Non, Kariel e Limiekki levaram a estátua de Lolth e a depositaram em cima do altar de pedra marmórea negra. O drow da Casa Dvaer sorriu, satisfeito. Kariel também estava. O truque mágico serviria para reduzir as desconfianças que pairavam na mente de Non a respeito deles.

      Restaurado o altar à Lolth, os aventureiros reuniram-se, próximo a escada espiral que subia. Sentaram em um dos largos bancos do templo.

      “E agora. Continuamos?”, perguntou Bingo.
      “Preciso descansar um pouco!”, ainda arfava Limiekki. “Parece que corri de Forte Zenthil para o Vale das Sombras sem parar! Karelist... quando é que este encanto vai desaparecer?”
      “Pelo que li a respeito, em cerca de uma hora!”, respondeu o arcano. “Dariel... preciso pedir-lhe algo”
      “Sim?!”
      “Emprestei-lhe minhas braçadeiras encantadas, mas vou precisar delas novamente. O encanto que me protegia foi dissipado por um daqueles beholders.”

      Limiekki então desamarrou os itens que carregava ao braço e entregou-lhes ao arcano, agradecendo-lhe.

      “Esperaremos Dariel se recuperar e subiremos em seguida”, colocou Mikhail.       “Preparem seus espíritos para o combate. Só temos este andar a subir e o pior certamente nos aguarda!”

      Então os infiltrados esperaram os minutos passarem, muito lentamente, enquanto olhavam para escada de pedra em espiral e para o levitador mágico, que poderiam levá-los ao sétimo e último andar, rumo ao objetivo de sua missão, e, certamente, em direção a um dos confrontos mais mortais naquela cidade drow de Maerymidra.

Esta história é uma descrição em teor literário dos resumos de aventuras jogadas pelo grupo Comitiva da Fé em Salvador sob o sistema de RPG Dungeons & Dragons, Edição 3.5.

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