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Histórias
 

Surge o Fogo Lunar

Descrita por Ricardo Costa.
Baseada no jogo mestrado por Ivan Lira.

Personagens principais da aventura:

Os Humanos: Arthos Fogo Negro [Torrellan Millithor]; Magnus de Helm [Marckarius Millithor]; Sigel O'Blound (Limiekki) [Dariel Millithor]; Danicus Gaundeford [Glemoran Millithor]. Os Elfos: Mikhail Velian [Narcélia Millithor]; Kariel Elkandor [Karelist Millithor]. O Grimlock: Loft Moft Toft Iskapoft. O Halfling: Bingo Playamundo [Quertus Millithor].

Surge o Fogo Lunar

O Esconderijo

      Arthos estava sentado na taverna Último Gole, no Distrito de Trun'Zoyl'Zl , na cidade subterrânea de Undrek´Thoz, em frente à bela e misteriosa drow, que lhe havia pronunciado uma palavra familiar: o nome da Deusa da Magia a quem, por capricho do destino, ele mesmo havia conhecido pessoalmente, quando a mortal Ariel ‘Meia-Noite’ Manx ainda não havia ascendido ao posto celeste. Como uma drow daquele rincão conhecia a Dama dos Mistérios? E, mais misterioso ainda, porque ela havia pronunciado seu nome para ele. Porém, resolveu o espadachim responder com a verdade.

      “Sim! Conheço Mystra! Mais até do que pode imaginar!”, disse o espadachim Arthos.
      “E seus amigos? Também conhecem?”, perguntou a mulher.
      “Sim. Eles também a conhecem!”, respondeu. “Mas o que Mystra têm haver com isto? Qual é o sentido de nossa conversa?”.
      “Conhecê-lo melhor. Acho que podemos agora conversar em um lugar mais adequado, onde lhe darei outras informações. Porém é importante que venha sozinho! Diga a seu amigo na mesa que retornará em breve e siga-me!”

      Arthos ponderou por um rápido momento e decidiu fazer o que a drow ainda sem um nome havia sugerido. Pensou que, se quisesse prejudicá-lo, poderia tê-lo feito ali mesmo. Havia então uma oportunidade de descobrir mais e acreditava que valia a pena correr o risco. Dirigiu-se então até o amigo Limiekki, que havia observado com curiosidade (e a mão no punho de sua adaga) a conversa que se desenrolou na mesa distante.

      “O que há?”, perguntou o mateiro a Arthos.
      “Talvez eu tenha uma chance de conseguir informações úteis com aquela mulher, mas tenho que ir sozinho com ela!”.
      “Você está louco? É óbvio que isto é uma emboscada! Quem é ela?”, questionou Limiekki.
      “Ela conhece Mystra!”, sussurrou Arthos, em resposta. “Não é uma drow comum!”.
      “E se você tiver problemas? Como vamos encontrá-lo!”, quis saber o amigo, preocupado.
      “Meus amigos podem tentar me localizar com alguma magia, certamente. A verdade é que não tenho certeza de nada, mas acho que devo tentar!”.

      Limiekki olhou para o seu colega de aventura e inspirou profundamente.

      “Está certo! Se você deseja assim, avisarei aos outros, mas acho que eles não vão gostar muito da idéia!”
      “Não se preocupe! Vou chegar inteiro!”, prometeu Arthos algo que não podia cumprir, batendo com a mão no ombro do colega. Logo após, deixou o estabelecimento, junto com a drow.
      “Para onde vamos?”, quis saber Arthos. “Também não sei o seu nome. Acho que pelo menos isto pode me dizer agora!”.
      “É justo. Chame-me de Chessintra. Estamos indo ao terminal de transporte. Tomaremos um lagarto para Mezrylornyl. Nosso destino fica nas imediações do Distrito!”.

      Andaram por cerca de vinte minutos e alcançaram o edifício circular de paredes brancas, de onde chegavam e partiam os répteis e aranhas de montaria. Aproximaram-se de um dos locais de embarque, deram algumas moedas ao condutor e subiram no grande lagarto monitor. Foram então duas horas em meio à escuridão e o silêncio da caverna. Arthos tinha suas perguntas, mas resolveu não fazê-las, afinal, o condutor e os outros passageiros podiam ouvi-lo. Desembarcaram na entrada da muralha do Distrito. Arthos caminhava em direção à cidade, quando foi interrompido pela drow.

      “Não! Não iremos para a cidade. Deve me seguir. Iremos para onde não nos podem encontrar!”.

      O aventureiro deu meia-volta e atendeu o pedido de Chessintra. Seguiram em meio a rochas, plantações de cogumelos fluorescentes e raízes, margearam um riacho subterrâneo e entraram em um túnel. Foi quando percorriam este caminho que o silêncio foi quebrado por uma voz masculina. Arthos sentiu a ponta aguda de uma espada pressionar suas costas.

      “Alto, intruso!”, bradou, fazendo o herói erguer os braços.
      “Não!”, disse a drow que ia à frente de Arthos, virando-se. “Ele está comigo!”.
      “Mas, Chess! Quem é este?!”, disse o drow.
      “Lesaonar, ele pode ser um daqueles que esperávamos! Ele conhece a Deusa Mystra!”, disse Chessintra.
      “É... é isso!”, respondeu Arthos. “Agora pode baixar esta lâmina, por favor?”.
      “Está bem!”, falou o drow, que vestia roupas discretas e simples, cobertas por um manto da cor amarronzada das pedras, ao guardar sua espada de volta na bainha. “Mas ainda assim ficarei de olho em você! Vamos!”.

      Andaram mais quinze minutos. Saíram do túnel onde estavam e, em seguida, adentraram outro. Em um determinado trecho, aparentemente sem saída, a mulher atravessou a parede, como se nada houvesse, e desapareceu. “Uma ilusão!”, pensou Arthos, que era familiar com os efeitos da Arte. Atravessou também, seguido pelo drow. Chegaram a um cômodo escavado na pedra. Um lugar de aparência e mobiliário rústico. Um drow, este vestindo um robe vermelho de mago e cabelos compridos e amarrados, levantou-se de uma cadeira, posta junto a uma mesa de madeira negra, onde lia um tomo.

      “Sorn!”, saudou Chessintra. “Temos um convidado!”.

À Procura de Rumos

      Kariel, Mikhail e Iskapoft estavam retornando à torre da Casa Trun'Zoyl'Zl, quando encontraram um pequeno bazar nas vizinhanças. Aproveitaram e gastaram algum tempo para procurar por um item especial e por fim encontraram o que queriam: uma ampulheta. Assim poderiam ter uma idéia mais precisa do tempo de duração do encanto de disfarce. Após a compra, prosseguiram e penetraram na torre da Casa Trun'Zoyl'Zl, passando pelos sentinelas, que haviam recebido ordens de permitir-lhes o acesso. Percorreram os degraus e corredores até o quarto coletivo onde se hospedava a maioria dos integrantes da Comitiva. Os três entraram no cômodo e encontraram por lá o professor Danicus, o paladino Magnus e o mateiro Limiekki, que já havia retornado de sua rápida visita á taverna Último Gole.

      “Olá amigos! Alguma novidade? Não vejo Arthos e Bingo”, perguntou o mago Kariel.
      “Bem, Kariel... tenho uma notícia boa e outra ruim: a boa é que encontramos a drow que nos espionou e ela parece conhecer Mystra. A ruim é que Arthos decidiu ir com ela sozinho para um lugar desconhecido, para obter informações!”, comentou Limiekki.
      “Arthos... típico! Espero em Tymora que ele não tenha caído em uma armadilha!”, lamentou Kariel pelo amigo imprudente.
      “Você devia ter impedido isto, Limiekki! Sabe-se lá o que ele deve estar passando agora! Pode estar sendo torturado para revelar toda nossa operação!”, comentou Magnus, voltando-se para o mateiro.
      “Magnus... Demover Arthos de alguma idéia é coisa quase impossível! Tentei argumentar, mas foi inútil!”.
      “Tentarei uma prece que me permita ver onde Arthos se encontra. Pode nos fornecer alguma pista para resgatá-lo!”, informou Mikhail. “E Bingo?”, completou. “Não me digam que ele também resolveu sumir!”.
      “Não da forma que imagina, meu caro amigo!”, falou o professor Danicus. “Tornei o pequeno invisível e ele está perambulando pelo castelo, em busca de informações. Estamos aguardando pela sua chegada.”.

      Mal o professor proferiu essas palavras, ouviu-se uma batida na porta. Limiekki então foi abri-la, mas não havia ninguém. Quando o mateiro fechou-a e virou para trás, Bingo estava bem à sua frente.

      “Uai! Quer me matar de susto!”, reclamou o homem de Forte Zenthil para o halfling disfarçado de drow, que sorria.
      “Desculpe, mas não consegui resistir!”, disse. “Amigos... descobri alguma coisa que deve ser importante!”.
      “O que foi, Bingo?”, perguntou Magnus, curioso.
      “Ouvi uma discussão em um dos quartos. Eram as filhas da Matrona. Estavam acusando umas às outras de terem realizado o atentado e, pelo que ouvi, parece que duas delas queriam realmente matar a mãe! Juro por Yondalla que isto é verdade!”
      “Não é difícil de acreditar, pequeno! Este comportamento é típico da sociedade drow. Porém nos dá uma informação interessante”, disse o professor Danicus.

      Alheio a discussão, Iskapoft, que tinha entrado com Mikhail e Kariel, olhava estranho e apalpava o colchão de uma das camas. Achou muito macio e resolveu sentar. Teve uma sensação de repouso e conforto que nunca havia sentido antes.

      “Amigos, Iskapoft poder dormir aqui? Aqui macio e quente e não duro e frio!”, pediu o grimlock.
      “Infelizmente os nossos anfitriões não concordariam com isto, Iskapoft!”, respondeu o professor.
      “Só por tempo pequeno! Por favor, amigos!”, insistiu.
      “Está bem! Pode deitar-se, mas só por alguns minutos! Depois, você deve ficar do lado de fora, para manter nosso disfarce!”, falou Magnus, para felicidade do horrendo e malcheiroso companheiro da Comitiva, que deu um sorriso mostrando sua bocarra de dentes finos e pontiagudos e deitou-se.
      “Ainda bem que é a cama de Arthos!”, cochichou Bingo para Limiekki.

      Enquanto aquele diálogo se desenrolava, Mikhail despejava um pouco de água em uma bacia de cerâmica que havia em um móvel no quarto, com o propósito de proporcionar aos hóspedes a oportunidade de lavarem os rostos e as mãos. O clérigo então recitou uma prece, olhando fixamente para o seu reflexo na água, esperando por uma visão do paradeiro de Arthos. Demorou alguns minutos desta forma, até que se dirigiu aos seus amigos, desanimado.

      “Não vejo nada. Algo está nublando a minha visão! Por enquanto só podemos orar para que nosso amigo esteja bem.”
      “Temos que resgatá-lo!”, disse Magnus, agitado.
      “Ainda não sabemos se ele realmente está em perigo. Acho que devemos nos concentrar na investigação por enquanto. Sabemos que a pedra do portal foi enfeitiçada e que, de acordo com o que Bingo nos disse, duas das sacerdotisas filhas da Matrona teriam motivos para matá-la. Podemos inquirir à Matrona se alguma de suas filhas tem conhecimento sobre as artes arcanas!”, sugeriu Kariel.
      “Sim. Vamos tentar obter esta informação! Pode vir comigo, Kariel. Vamos até a Matrona Jesthflett novamente!”
      “Também gostaria de ir!”, pediu Limiekki.
      “Aguardaremos o retorno de vocês, então! Vamos esperar também o nosso amigo Arthos dar algum sinal, caso contrário, sairemos em sua procura!”.
      “Faremos isto, Magnus! Até a volta, companheiros!”, falou Mikhail, deixando o quarto coletivo junto com o arcano Kariel e o mateiro Limiekki.

Arthos Fogo Negro Apresenta-se

      O arcano Sorn olhava com desconfiança o drow forasteiro que havia entrado com os seus dois colegas.
      “Acalme-se, Sorn.”, falou Chessintra. “Este pode ser um daqueles que esperamos. Ele conhece a divindade Mystra.”
      “Como pode ter certeza! Se for uma farsa, pode expor nossos segredos trazendo-o aqui!”, respondeu o mago de cabelos prateados, amarrados em um longo penteado ‘rabo de cavalo’.
      “Vocês me esperavam? Que os avisou sobre mim? São seguidores de Mystra?”, perguntou Arthos.
      “As respostas às suas perguntas podem ficar para depois. Chamo-me Sorn e estes são Chessintra e Lesaonar. Quem é você?”, quis saber o mago drow.

      Arthos retirou a versão alterada pela magia de disfarce do chapéu elegante e de abas largas que costumava usar e falou:

      “Na superfície, sou conhecido como Arthos!”.
      “Então veio da superfície!?”, disse Sorn, em um tom de desconfiança. “Então não terá grandes dificuldades em nos fornecer uma descrição deste lugar!”.
      O espadachim da Comitiva ia começar a falar, quando Chessintra os interrompeu.

      “Parem com isto! Nós não somos inimigos! Arthos... queremos saber o motivo de você e seus amigos estarem aqui! Não se preocupe. Não somos aliados de nenhuma Casa deste lugar e nem somos fiéis a Lolth! Soubemos através de nossos superiores que um grupo aliado a Mystra iria cruzar nossos caminhos e que teríamos que ajudá-lo. Somos seguidores de Eilistraee.”
      “E também esperamos que possa nos ajudar!”, completou Lesaonar. “Tempos atrás, descobrimos que a Casa Trun'Zoyl'Zl prepara um plano, algo chamado de A Retomada, porém não conseguimos descobrir mais detalhes. Talvez vocês, que conseguiram se infiltrar na fortaleza, possam descobrir algo.”.
      “A Retomada está diretamente ligada ao motivo de estarmos aqui! Tenho muitas informações sobre isto, mas não posso revelá-las até contactar meus amigos”, disse Arthos.
      “Entendemos sua preocupação, mas haverá o tempo para trocarmos informações! Agora me diga, Arthos... como é a superfície?”, perguntou Lesaonar, drow dos ermos do subterrâneo, curioso sobre outras paisagens.
      “É um local bastante vasto, sem um teto sobre nossas cabeças, onde brilham o sol e a lua. É o lar dos homens, elfos e anões e muitas outras criaturas que não existem aqui. Também há muitos reinos e impérios! Eu já estive até em...”.
      “Basta!”, interrompeu bruscamente Sorn. “Estas são informações genéricas que qualquer um escravagista poderia obter. Lesaonar e Chessintra... vocês são demasiados crédulos. Ele pode ser um espião colocado em nosso caminho para nos revelar. Detectei, enquanto falavam, um encanto de ilusão agindo sobre ele. Vamos ver como este tal Arthos se sai sem ela!”.

      Sorn então executou rapidamente um gesto e proferiu palavras arcanas, antes mesmo que Arthos pudesse protestar. A magia conjurada pelo drow dissipou as energias místicas do encantamento que disfarçava o aventureiro da Comitiva da Fé e, em poucos segundos, sua pele e cabelo mudaram de cor e seu corpo alterou-se de forma. Era novamente um homem.
      “Pela Deusa!”, exclamou Chessintra! “Um humano!”.
      “Muito prazer! Arthos Fogo Negro!”, disse o espadachim, desta vez na língua comum da superfície, inclinando o seu corpo em uma irônica saudação.

A Vazia Sala do Tesouro

      Kariel, Mikhail e Limiekki dirigiram-se a um dos sentinelas que guardava o corredor onde ficava os seus aposentos. Mikhail, ou melhor, a sacerdotisa Narcélia Millithor, solicitou que lhes conseguisse uma audiência com a Matrona. O soldado então pediu-lhes para aguardar e desapareceu pelos corredores por rápidos minutos. Quando voltou, conduziu os três heróis disfarçados novamente para a sala do trono. Lá estavam a Matrona Jesthflett e o mago da Casa, Houndaer.

      “Diga-nos... encontraram algo novo?”, perguntou a líder dos Trun'Zoyl'Zl.
      “Não, mas gostaríamos de falar-lhe em particular!”, disse Mikhail.
      “Ora... que ultraje!”, protestou o mago Houndaer. “Sou um membro da elite da Casa Trun'Zoyl'Zl e mereço ter informações sobre o caso.”.
      “Estamos tentando reparar a falha causada pela falta de vigilância da sua Casa. Acredite que ficamos mais ultrajados do que você está agora, quando vimos aquela pedra falsa!”, disse Kariel em resposta.
      “Deixe-nos, Houndaer!”, ordenou Jesthflett.

      O mago exibiu uma face contrariada, engoliu o ódio e saiu da sala, atendendo a ordem da Matrona.

      “O que desejam?”, inquiriu Jesthflett.
      “Desejamos saber se alguma de suas filhas possui conhecimento nas artes arcanas”, disse-lhe Kariel.
      “Baltana, minha filha mais jovem, é aprendiz de Houndaer!”.
      “Ela tinha acesso á jóia?”, perguntou Mikhail.
      “Não. Porque estas perguntas sobre Baltana?”, quis saber a drow.
      “Certamente quem colocou aquela armadilha na jóia possuía acesso à magia arcana e suas filhas têm motivos para matá-la e assim assumir a liderança da Casa”, colocou Kariel.
      “Podem investigá-la. E me informem quando conseguirem algo de concreto. Existe algo mais que possa fazer para auxiliá-los a desvendar este mistério?”
      “Sim, Matrona! Gostaríamos de ver o local onde a jóia estava guardada e levar conosco a caixa para uma análise!”, pediu Limiekki.
      “Está bem! Sentinela!”, chamou a Matrona, em voz alta.

      Um dos dois soldados que guardavam entrou na sala e inclinou-se em reverência.

      “Chame Jeggred imediatamente!”, ordenou.

      O sentinela saiu e retornou, minutos depois, com um drow muito forte, de armadura negra e uma grande espada à cintura. Possuía os cabelos longos e uma expressão bastante séria. Inclinou-se à frente da líder.

      “Jeggred é o nosso Mestre das Armas. Ele irá conduzi-los ao local onde estava guardada a jóia!”
      “Sigam-me!”, disse o guerreiro.

      Os três da Comitiva então deixaram a sala do trono e começaram a percorrer uma série de corredores e escadas da labiríntica torre. Chegaram a uma porta, no final de um corredor curto, em algum lugar do quarto andar. A porta era guardada por quatro soldados, que abriram passagem para o Mestre das Armas e seus acompanhantes. A porta, que era feita toda em um aço negro e possuía dobradiças e fechaduras bastante robustas, foi aberta por Jeggred e revelou uma sala ampla e vazia.

      “A Matrona informou-me após o roubo que a jóia estava em um pequeno cofre na parede mais ao fundo. Estarei aqui, do lado de fora, aguardando-os”, disse o Mestre das Armas, fechando a porta em seguida.

      O trio espalhou-se, olhando cuidadosamente o chão e as paredes. Depois de alguns minutos, Limiekki quebrou o silêncio.

      “Pela poeira e sinais no chão, me parece que esta sala foi esvaziada recentemente. Havia aqui muitos objetos! Arcas, talvez”.
      “A porta era muito espessa e as ferragens que as sustentam eram bastante reforçadas. Aqui deveria ser uma sala do tesouro! Devem ter retirado as riquezas daqui, quando descobriram que ela foi violada”, comentou Kariel.
      “Encontrei o cofre!”, avisou Mikhail para os colegas, que se uniram a ele em seguida.

      Era uma portinhola de aço que estava destrancada. Dentro, um mecanismo de encaixe revelava uma gaveta de madeira negra com uma tranca, agora aberta, que estava vazia.

      “A caixa é exatamente do tamanho desta gaveta!”, observou Mikhail.
      “E existem marcas de arranhões nela. Vejam!”, disse Limiekki, apontando para alguns riscos na madeira. “Parece que alguém que não tinha a chave tentou forçá-la”.
      “E esta portinhola é muito aparente para esconder algo tão secreto. Diria que seria o lugar ideal para ser disfarçado com uma magia de ilusão!”, acrescentou Kariel.“Uma hipótese viável seria a de que um arcano detectou a ilusão e a dissipou e, em seguida, tentou arrombar a porta”.
      “Para necessitar arrombar precisaria ser alguém que não possuía acesso livre a jóia, o que descartaria Zesstra, a filha responsável pela guarda do item”, colocou Mikhail. “A suposição sobre o uso de magias colocariam em evidência Houndaer e Baltana”.
      “Não há nada mais para vermos aqui!”, disse Limiekki. “Vamos para o quarto falar com os nossos colegas sobre o que encontramos!”.
      “Sim. Mas precisaremos interrogar as filhas da Matrona. Com sorte, descobrimos algum detalhe que esclareça este mistério!”, concluiu Kariel.

      Repentinamente, o mago da Comitiva da Fé ficou imóvel por rápidos instantes, concentrado em uma voz que ouvia em sua mente.

      “O que houve, Kariel?”
      “Arthos... mandou-me uma mensagem. Ele está bem e encontrou aliados. Está próximo de Mezrylornyl!”

O Fogo Lunar

      Arthos ouvia os drows ao seu redor conversarem, porém nada mais entendia. O encanto dissipado por Sorn, além de sua aparência de elfo da escuridão, havia também levado sua capacidade de compreender aquela língua do Subterrâneo. Lembrou-se então de uma maneira de avisar seus amigos do seu paradeiro. Kariel, seu amigo mago, era um Escolhido da Deusa Mystra e havia lhe dito, certa vez, que, graças à dádiva que recebeu da Dama dos Mistérios, poderia escutar em sua mente, se estivesse concentrado, nove palavras após o seu nome ou títulos serem pronunciados, mesmo que isto fosse feito em longas distâncias. O ruivo espadachim então falou, sussurrando:

      “Kariel, estou em Mezrylornyl com aliados de Eilistraee.”
      “Falar alguma coisa?”, perguntou Lesaonar, desta vez usando uma precária versão do comum, carregada com um forte sotaque.
      “Fala comum?”, respondeu perguntando o espadachim.
      “Nossa Deusa dizer que devemos ir para superfície algum dia. Nós conhecer palavras dos homens, mas não muitas”, disse Sorn.
      “Como ativar feitiço de novo?”, perguntou Chessintra.
      “Preciso de meus amigos aqui para executarem a magia.”, respondeu Arthos.

      Chessintra olhou para Sorn, irritada.

      “Está feliz agora, Sorn!? Teremos que falar com ele agora com o nosso péssimo comum”, disse, falando no idioma drow.
      “Bah! Não vamos perder tempo. Ele falou a verdade, então lhe devemos algumas explicações!”. Sorn continuou, desta vez em comum. “Nós ser Fogo Lunar, seguidores de Eilistraee. Nossa deusa falar que um dia nós dever retornar a Superfície e ser respeitado como elfos!”.
      “Elfos... hummm... por acaso falam élfico?”, o espadachim agora falava a língua do Povo Antigo, seu idioma natal.
      “Sim. Deveras melhor do que pronunciamos Comum. Tu és repleto de surpresas, humano!”, respondeu Sorn, em um élfico belo, mas um tanto arcaico. “Dizia que nossa missão é conduzir, em um dia vindouro, o nosso povo á Superfície, para uma convivência harmônica com as demais raças, e encerrar o preconceito de que os drows são todos vis e acabar com os malévolos crentes da Deusa Lolth”.
      “Então estamos do mesmo lado!”, disse Arthos, um pouco mais aliviado. “Eu e meus amigos formamos um grupo conhecido como a Comitiva da Fé. Viemos da Superfície para deter este plano chamado de Retomada, atendendo a um pedido dos Harpistas...”.
      “Harpistas?”, Lesaonar interrompeu.
      “É uma organização que existe na Superfície e que busca manter a paz e defender a justiça”, respondeu o aventureiro. “Esta Retomada consiste no transporte repentino de exércitos das cidades drow através de portais mágicos, com o propósito de invadir e escravizar os nossos reinos”.
      “Pela Donzela Escura!”, exclamou Chessintra. “Isto é bastante grave!”.
      “Sim. E é por isto que estamos indo de cidade em cidade do Subterrâneo, para encontrar e destruir estes portais e as gemas mágicas que os ativam. Usamos a aparência dos Millithor, a Casa que arquitetou a Retomada, para nos infiltramos entre aqueles que participam do plano. Aqui, em Undrek´Thoz, a Casa responsável é a Trun'Zoyl'Zl! Isto é tudo que tenho para contar-lhes!”, concluiu o jovem ruivo, de cabelos compridos e barba rala.
      “É terrível!”, comentou Sorn. “Quanto a nós, habitamos a esta metrópole há quase vinte anos humanos. Nossa missão é coletar informações a respeito dos avanços e planos das Casas de Undrek´Thoz. Não sei se sabes, mas esta é um dos maiores povoamentos do Subterrâneo, menor apenas do que minha terra natal, Sshamath”.
      “Então, se Undrek´Thoz é uma das maiores cidades, é possível dizer que a Trun'Zoyl'Zl é uma das Casas drows mais poderosas que existem?”, conjeturou Arthos.
      “Certamente. Teus amigos correrão grande perigo se o engodo for descoberto”, falou Chessintra.
      “Temos que trazê-los para cá. Talvez possamos trabalhar em conjunto!”, propôs Arthos. “Posso marcar um encontro com um deles e um de vocês, em Mezrylornyl talvez”.
      “Isto é por demais arriscado!”, disse Lesaonar.
      “Mas não posso ir a lugar nenhum sem o encanto de disfarce!”, retrucou Arthos.
      “Como vais marcar este encontro?”, perguntou Sorn.
      “Isto é um tanto complicado, mas digamos que um de meus amigos pode me ouvir, ainda que sejam poucas palavras. Basta que marquem um lugar!”.
      “Confiaste em nós, então faremos o mesmo”, disse Sorn. “Peças para teu amigo encontrar Chessintra na biblioteca de Mezrylornyl. Ela o reconhecerá pelo brasão da Casa que usam!”.

      Arthos então calculou as palavras em sua mente e pronunciou o nome do amigo mais uma vez:

      “Kariel. Encontre Chessintra na biblioteca de Mezrylornyl. Estou sem disfarce.”

      As palavras então viajaram, até a mente do elfo arcano, a mais de uma centena de quilômetros dali.

O Interrogatório

      Os integrantes da Comitiva já estavam reunidos há algum tempo no quarto coletivo oferecido pela Casa Trun'Zoyl'Zl, a exceção de Mikhail, que preparava um encanto especial em seu aposento privativo. Os heróis, agora investigadores, acertaram com a Matrona Jesthflett que seriam feitos dois interrogatórios com as suas filhas sacerdotisas: um conduzido por Kariel e Limiekki, em uma sala reservada e outro, com Mikhail, em seu aposento, este último preparava secretamente de uma prece especial, uma que poderia indicar se alguém estava realmente mentindo. Neste momento, os dois primeiros aguardavam Eclavdra, a mais velha das sacerdotisas filhas de Jesthflett Trun'Zoyl'Zl. A sala que ocupavam era um pequeno cômodo, onde havia apenas uma mesa e quatro cadeiras. Um dado instante, a porta abriu-se e entrou a mulher. A drow tinha na face uma expressão que transparecia um misto de serenidade e curiosidade.

      “Senhores... por que fui chamada aqui?”, perguntou a elfa da escuridão.
      “Sacerdotisa... estamos chamando pessoas que são próximas da Matrona para responder algumas perguntas, para tentarmos descobrir detalhes que nos permitam desvendar o mistério a cerca do desaparecimento da jóia mística e do atentado conta a vida de sua mãe. Nossa sacerdotisa deverá perguntar-lhe sobre alguns fatos, posteriormente. Importa-se em responder estes questionamentos?”, introduziu Kariel, enquanto a drow sentava-se em uma cadeira a sua frente.
      “Não. Se for para solucionar este caso, assim o farei!”, disse, tranqüila.
      “Obrigado”, Kariel realizou uma pequena pausa e então continuou. “É um costume que a filha mais velha da Matrona ocupe o segundo lugar de prestígio na hierarquia da Casa a que pertence, porém isto não acontece com a senhora. Pode-nos dizer o motivo?”.
      “Eu não sou filha legítima de minha Senhora. Fui absorvida de outra Casa, a extinta Drezz'Lynur. Por ter esta origem, jamais poderei ser uma Matrona”, respondeu.
      “Como é o relacionamento com suas irmãs?”, continuou o arcano, conduzindo o interrogatório.
      “Não existem problemas quanto a isto. Eu, Zesstra e Baltana nos damos bem”.
      “Você e Baltana sabiam algo sobre a jóia?”.
      “Não sobre a jóia especificamente. Baltana havia contado-me que vocês estiveram aqui antes, tempos atrás, mas que não saiba o motivo. Ela sempre foi muito curiosa e quis saber o porquê. Mas isto foi antes de eu chegar a esta Casa.”
      “Se a Matrona perecesse no ataque, sua irmã Zesstra ascenderia à liderança da Casa. Acredita que Zesstra ou mesmo Baltana teriam interesse na morte de sua Matrona?”.
      “A ascensão entre as Casas pode ser feita desta forma, mas não acredito que elas tenham feito isto, até porque o roubo desta pedra seria prejudicial para a imagem e para os planos de toda a Casa Trun'Zoyl'Zl.”.

      Kariel enfim parou e virou-se para o colega Limiekki. Perguntou-lhe se havia algo que quisesse acrescentar, mas o mateiro meneou negativamente com a cabeça.

      “Isto é tudo! Agradeço a colaboração!”, disse Kariel, príncipe de Kand, levando-se da cadeira e acompanhando a sacerdotisa de Lolth até a porta.
“Estarei disponível se puder ajudar em algo que aponte os culpados”, disse a mulher, ao se despedir.

      Logo o elfo em pele de drow pediu ao sentinela que aguardava na porta a presença de Zesstra, a filha da Matrona que era a segunda em prestígio na Casa. Algum tempo depois, a altiva drow, de justo vestido negro e uma pequena gema vermelha presa à testa, entrou porta adentro.

      “Onde está Narcélia?”, perguntou ao ver somente Kariel e Limiekki, que a aguardavam.
      “Nossa sacerdotisa está reclusa, porém desejará fazê-la algumas perguntas em um tempo apropriado”, respondeu Kariel.
      “Mago Karelist, não serei interrogada por subordinados!”, falou para Kariel. “Chame sua sacerdotisa ou nada falarei!”.
      “A Matrona disse-nos que poderíamos interrogá-la sem problemas. Esperamos que não contrarie as ordens de sua mãe!”, colocou Limiekki.

      Zesstra ponderou por alguns momentos, e por fim sentou em uma das cadeiras, aborrecida.

      “Está bem! Sejam breves!”, disse.
      “Senhora Zesstra. É a segunda sacerdotisa e a mais próxima na linha de sucessão da Casa. A Matrona lhe incumbiu da guarda da jóia. Poderia dizer-nos como a jóia estava guardada?”, tomou a palavra o mago da Comitiva.
      “Eu a guardei na sala do tesouro e as únicas pessoas que tinham acesso eram eu e minha mãe”, respondeu.
      “Não havia nenhuma proteção ou magia agindo no compartimento onde a jóia estava oculta?”, quis saber Kariel.
      “Sim. Uma magia de ilusão foi conjurada por Houndaer para disfarçar a parede, mas isto foi feito antes do acordo da Retomada. Ele não conhecia a gaveta oculta”, informou a sacerdotisa.
      “Por fim, pergunto-lhe como é relacionamento com suas irmãs? Tem alguma preferência entre as duas? Alguma diferença?”.
      “O meu relacionamento é o melhor possível, sem diferenciação. São duas ótimas subordinadas. As diferenças sempre existem, visto que elas se encontram em um estrato mais baixo que o meu na estrutura da Casa”, disse Zesstra, com uma voz fria e séria.
      “Estou satisfeito. Obrigado!”, agradeceu Kariel.
      “Ótimo. Espero que achem logo o culpado. Estou farta de passar por situações humilhantes como esta e outras as quais fui submetida nestes dias”.
      “Nós também nos sentimos da mesma forma!”, rebateu Limiekki.

      A drow deixou a sala sem olhar para trás e sem proferir mais nenhuma palavra. Os dois inquisidores ficaram em um curto silêncio, interrompido pelo mateiro.

      “O que acha, Kariel?”.
      “Não sei. Mas senti que ela possuía uma série de itens mágicos agindo sobre si. Não pude determinar a exata natureza das magias.”
      “Um destes itens poderia protegê-la dos gases da sala?”, deduziu o homem zenthilar.
      “Sim. É uma possibilidade, mas que infelizmente não podemos provar!”, respondeu o elfo. “Vamos chamar Baltana. Será nosso último interrogatório!”.

      Mais uma vez, o sentinela foi acionado e momentos depois, entrou outra drow. Desta vez era uma de estatura menor e de olhar mais vivaz e maneiras mais agitadas. Disse Baltana assim que entrou:
      “Porque que fui chamada aqui? Soube do atentado de minha mãe, mas o que eu tenho a ver com isto?”.
      “Não podemos afirmar que tem algo a ver com isto. Somente desejamos que responda algumas perguntas. Suas irmãs já fizeram o mesmo!”, falou Kariel.
      “Elas foram acusadas de tentar matar a Matrona?”, perguntou a jovem.
      “Não. Até o momento não.”, respondeu Kariel. “Mas precisamos perguntar para tentar descobrir algum detalhe que forneça-nos pistas que possam levar aos culpados.”. O mago fez uma pausa e iniciou o interrogatório. “A senhora já deve saber que nós e a Matrona fomos atacados através uma jóia encantada com uma magia nociva. Por acaso sabia da existência desta jóia ou de algo ligado a ela?”.
      “Nunca vi esta tal jóia e nada sei sobre ela. Mas o que há de importante nela?”, devolveu a pergunta.
      “No momento, nos interessamos em saber como ela foi preparada com magia. A senhora é uma estudante de artes arcanas, não? Aprendiz do mago da Casa, Houndaer, segundo soube. Tem informação sobre alguma magia ou ritual específico que ele estivesse preparando nos últimos tempos?”.
      “Sou aprendiz de Houndaer, mas não sei nada sobre rituais ou magias que ele estivesse preparando”, disse Baltana.
      “E o relacionamento com suas irmãs? É harmonioso?”, continuou Kariel.
      “Não há nada de errado conosco. Zesstra às vezes é um tanto dura, mas nunca vi nada de anormal.”
      “Você não participa diretamente das decisões da Casa. Não fica curiosa para saber os planos e as atividades restritas a Matrona, sua irmã e o mago da Casa?”
      “Está insinuando que sou intrometida?”, respondeu, em tom contrariado.
      “Não, senhora. Curiosidade pode ser uma virtude. Pergunto, porque insistiu em estar na sala no momento do acontecimento sinistro”, colocou o mago da Comitiva.
      “Só queria demonstrar que estou pronta para ter um papel mais importante. Não quero ser uma subordinada para sempre!”.
      “Bem... não me ocorre mais nada no momento. Agradeço a ...”.
      “Espere...”, interrompeu a moça. “Eu tenho uma pergunta. O que é esta jóia? Porque ela é tão importante?”.
      “Senhora... sou apenas um subordinado. Se desejar saber sobre isto, peço que questione a sua mãe sobre o assunto.”
      “Está bem. É uma pena. Se soubesse de algo, talvez pudesse ajudar de alguma forma. Podia participar das investigações”, sugeriu.
      “Levaremos o seu oferecimento em consideração”, disse o mago, levantando-se da cadeira e acompanhando a mulher até a porta. “Agradeço a colaboração. Nossa sacerdotisa também deve ouvi-la em breve!”.

      Kariel fechou a porta e sentou-se novamente na cadeira.

      “E então?”, perguntou Limiekki. “O que achou?”.
      “Não descobrimos nada conclusivo, mas foi interessante observar as diferentes personalidades de cada uma”, respondeu Kariel.
      “Vamos nos reunir com os outros para partilhar as informações e aguardar o interrogatório de Mikhail. Quem sabe o encanto que ele está preparando surta em algum resultado?”, disse o mateiro.
      “Tymora permita, Limiekki, mas não estarei aqui para saber. Ouvi a voz de Arthos mais uma vez em minha mente. Ele quer que eu encontre alguém chamado Chessintra na biblioteca de Mezrylornyl. Ele está sem o disfarce mágico!”.
      “Irei com você!”, disse o homem disfarçado de drow. “Pode ser a mulher que vi na taverna. Eu poderei identificá-la!”.
      Kariel concordou e os dois então deixaram a sala e rumaram novamente até o quarto coletivo. Mikhail ainda preparava o encanto em seu aposento privativo e não estava presente. Em meio aos colegas, o mago e o mateiro relataram o interrogatório e suas impressões e em seguida, despediram-se. Tomariam um dos lagartos que os levariam para o Distrito de Mezrylornyl.

Um Reencontro

      Duas horas haviam se passado e Kariel e Limiekki já estavam na biblioteca. Sentados em uma mesa, observavam atentamente todos que entravam no enorme salão repleto de mesas e estantes, até que Limiekki cutucou o amigo com o cotovelo.
      “É ela!”, disse, indicando com a cabeça uma mulher que havia acabado de entrar.

      Seus olhares se encontraram e Chessintra os chamou.

      “Sigam-me!”, disse a drow rebelde, e assim os dois obedeceram, não sem antes sentirem no espírito grande dose de insegurança e precaução. Foram até um beco vazio, em meio às construções da úmida cidade.

      “É você o arcano chamado Kariel?”, perguntou a moça.
      “É você a aliada de que Arthos falou?”, devolveu a pergunta o mago.
      “Sim. E para acabar com as desconfianças, transmito uma pergunta que seu amigo pediu-me para fazer: onde ele casou-se com Diana?”.
      “Foi em um reino escondido, chamado de Tron Marmorin!”, respondeu Kariel.
      “Pois bem, Kariel. Chamo-me Chessintra”, disse estendendo a mão, em sinal de amizade, retribuído pelos dois membros da Comitiva. “Os levarei até Arthos! Sigam-me!”.

      Os três então passaram por ruelas pouco movimentadas e becos e deixaram as muralhas do distrito. Do lado de fora, passaram pelo sinuoso caminho que Arthos havia feito anteriormente, até finalmente, ultrapassarem a parede ilusória e adentrarem na base de operações secreta do Fogo Lunar. Encontraram Arthos sentado em volta da mesa, juntamente com Sorn e Lesaonar, conversando em élfico sobre o absurdo de não ter visto estalagens ou festas em Undrek´Thoz.

      “Olá Kariel!”, disse, interrompendo as amenidades.
      “Olá, Arthos!”, respondeu Kariel também em élfico. “Arriscou-se demais. Podia ter caído em uma armadilha!”. O arcano virou-se para a direção das cadeiras, onde sentavam os outros. “Quem são vocês e porque nos trouxeram aqui? Eu vim pelo meu amigo”.
      “Arthos nos contou que são oriundos da Superfície e que sois humanos!”, disse Sorn, no élfico antigo que conhecia.
      “Então temo que ele já tenha contado-lhes tudo. A propósito, não sou um humano e sim um elfo!’
      “És muito corajoso!”, disse Chessintra.“Se fosses encontrado, serias queimado em praça pública!”.
      “Estamos arriscando as nossas vidas para salvar milhares de outras!”, respondeu o mago.
      “Então, meu amigo, temos missões muito similares. Chamo-me Sorn Abbylan e estes são Lesaonar Luen e Chessintra Yauntyrr. Somos parte de uma organização chamada Fogo Lunar, abençoada por nossa senhora e deusa Eilistraee, cujo objetivo final é levar os drows de volta à Superfície, para conviver harmonicamente com os que lá habitam, e findar a maldição que nos aflige há tanto tempo!”.
      “É uma missão nobre, sem dúvida, mas não sei se poderemos ajudá-los. Estamos envolvidos em outra demanda.”, disse Kariel.
“Arthos falou-nos dela!”, comentou, Sorn.

      Kariel então olhou para o amigo, com uma expressão de desaprovação. Limiekki, sentou-se em uma cadeira e nada compreendia, pois não era fluente na língua élfica, mas conhecendo Arthos e Kariel, conseguiu entender o que se passava naquele episódio em particular.

      “Existe algo que não tenha contado, Arthos?!”, perguntou, irônico, o elfo.
      “Não censures teu amigo. Vossa tarefa é deveras importante, porém a nossa é muito mais antiga e difícil. Se o Fogo Lunar desaparecer, as esperanças dos drows em dividirem o mundo da Superfície também morrerão e o ódio de Lolth triunfará”, disse Sorn.
      “Nós temos células espalhadas por algumas das cidades do Subterrâneo e trocamos informações sobre possíveis ofensivas e planos das Casas. Já conseguimos impedir algumas tentativas de invasão!”, acrescentou Lesaonar.
      “Então poderíamos usar estas células como apoio para nossa missão!”, disse Arthos.
      “Sim, apesar de não estarmos em todas as cidades e sermos poucos. Somos impiedosamente caçados e nossa ação em segredo é o que permite-nos viver!”, comentou Chessintra, em um timbre melancólico. “Muito de nós já tombaram para defender nossa causa!”.
      “Arthos contou-nos de vossa missão e da situação do roubo da jóia que ativa o portal. Já nos infiltramos lá, certa vez. Se pudermos ajudar-vos, ficaremos agradados!”, ofereceu-se Sorn, em nome do Fogo Lunar.
      “Se meu amigo já lhe disse tudo e se você já esteve oculto na fortaleza dos Trun'Zoyl'Zl , talvez possa nos dizer como sair daquele lugar sem sermos notados. Precisaremos de uma rota de fuga e não sei se minhas magias funcionarão.”
      “Certamente não funcionarão, colega mago! A fortaleza é protegida contra quaisquer magias que permitam a intrusão ou a fuga, porém conhecemos um caminho pelo subterrâneo da cidadela. Mas já tens a jóia?”, perguntou Sorn para Kariel.
      “Não. Estamos investigando e, neste momento, um de meus amigos conduz um interrogatório. Até o momento, nada temos de concreto, mas suspeitamos das filhas da Matrona. Acreditamos que elas possuem algum motivo para isto”, disse Kariel.
      “Tens sorte! A situação da Matrona ante o roubo foi tão vexaminosa que ela não vos investigou apropriadamente. Mas não vos descuide. Jesthflett, Zesstra e Baltana são muito cruéis!”, disse Chessintra.
      “Esperai! Lembrei-me de algo!”, interrompeu Lesaonar, que havia ficado por alguns minutos, pensativo. “Existem boatos de que alguém do Jalavar Lynnur está infiltrado na Casa Trun'Zoyl'Zl! Será que ele poderia ter roubado a tal jóia?”.
      “Jalavar o quê?”, perguntou Arthos.
      “O Jalavar Lynnur, dizem, é uma organização formada por sobreviventes da Casa Drezz'Lynur. A palavra significa algo como ‘renascimento’, em uma versão arcaica de nossa língua.”, explicou Chessintra.
      “Eclavdra! A filha mais velha da Matrona foi absorvida da Casa Drezz'Lynur!”, exclamou Arthos.
      “Pela Dama Escura! Então será mesmo verdade? Eu vi esta sacerdotisa sair uma vez oculta do Distrito de Trun'Zoyl'Zl, mas ela conseguiu me despistar! Será ela a infiltrada?”, perguntou-se, intrigado, Lesaonar. “Ela havia rumado na direção que conduz aos Distritos de Phaundakulsan, Brundag, Sshurlynder e Fyvrek'Zek. Talvez o Jalavar então fique em algumas destas regiões!”.
      “Teremos que investigá-la, então! Mas, em relação a este Jalavar Lynnur... qual é o objetivo deste grupo?”, quis saber Kariel.
      “Não sabemos ao certo”, respondeu Chessintra. “Numa certa vez encontramos, moribundo, em um ermo de Phandalkuzan, um agente que havia se infiltrado na Casa do Distrito e que havia sido descoberto. Foi muito espancado e nada podemos fazer para salvá-lo, porém, eu e Lesaonar conseguimos ouvi-lo dizer, antes de falecer: O Jalavar Lynnur, terá a sua vingança!”. Acreditamos que devem responsabilizar às outras Casas pela sua queda!”, concluiu a drow.
      “Meus amigos. Nossos destinos estão entrelaçados. O Fogo Lunar ajudará no que for possível a vossa demanda, que será também a nossa. Mas não podemos ficar a aguardar. Temos que fazer algo!”, disse Sorn.
      “Sim. Devemos retornar com estas informações para os nossos amigos e montar vigilância sobre Eclavdra!”, respondeu o arcano.
      “Iremos convosco, pois conhecemos bem os caminhos!”, ofereceu-se Chessintra.
      “Certo... apenas renovarei o encanto de disfarce sobre Arthos e poderemos...”
      “Ei! Kariel!”, interrompeu Limiekki, em língua comum, puxando a capa da veste do mago.
      “Sim?! O que foi?”, respondeu o arcano.
      “Pode traduzir esta conversa? Não sei nada de élfico! Não entendi nada”, pediu o mateiro, correspondido por um sorriso do amigo.

      Kariel colocou Limiekki a par das novas informações e executou o ritual para o disfarce de Arthos se reestabelecer. Falavam agora todos a língua dos elfos da escuridão. Chessintra e Lesaonar iriam com os três da Comitiva, enquanto Sorn ficava para guardar a base oculta. Deixaram a sala secreta, refazendo o tortuoso caminho de volta, quando ouviram algo, um ruído que não se espera em lugares ermos como aquele.

      “Passos!”, alertou Lesaonar.
      ”Sim. Parecem muitos!”, confirmou Limiekki.
      ”Escondam-se!”, disse Chessintra.

      Os companheiros então ocultaram na escuridão e nas rochas que havia pelo caminho, enquanto ouviam os passos aproximaram-se. Agora, de seus esconderijos, podiam ouvir as vozes e a silhueta de seis drows, que aos poucos revelaram ser soldados. Seus uniformes eram semelhantes aos vistos no Distrito de Nanitaran.

      “Tem certeza que eles passaram por aqui?”, perguntou um dos rastreadores.
      “Claro que sim! Eu os segui. Eles foram por aqui!”, respondeu um outro, que segurava um cristal que emitia uma tênue luz púrpura.

      Do seu refúgio em meio às pedras, Chessintra gesticulou para os demais, que estavam próximos. Deveriam atacar! Nenhum dos dois grupos, Fogo Lunar ou Comitiva da Fé, poderia ser descoberto. A drow foi a primeira: sacou das costas sua besta e executou um disparo perfeito. O virote de ponta metálica atravessou o pescoço do drow que seguia a frente, deixando cair ao chão seu corpo morto e o cristal de iluminação. Os demais guerreiros do Distrito das Artes sacaram suas armas, enquanto os cinco ocultos deixavam seus esconderijos para combater.

      Lesaonar efetuou também um disparo com o arco curto que possuía. Não foi tão eficiente quanto sua colega, mas acertou o ombro de um dos perseguidores. Limiekki e Arthos saltaram com suas lâminas nas mãos e começaram uma feroz e rápida troca de golpes, fazendo o som do aço preencher e ecoar. Kariel conjurou um sortilégio: logo após gesticular e proferir algumas palavras, surgiu em uma de suas mãos um globo azulado de energia, que ganhou os ares para explodir entre dois inimigos que se encontravam próximos. Os corpos dos dois imediatamente congelaram e se partiram.

      Existiam três soldados da Casa Nanitarin ainda de pé. Não eram guerreiros muito hábeis e, para sua dificuldade, o fulminante ataque surpresa os havia confundido. O que lutava com a uma flecha encravada no ombro direito entrou em combate franco com Leosanar. O drow rastreador, aproveitando-se da lentidão do soldado ferido, desferiu-lhe golpes repetidos com sua espada, que penetrou na armadura e atingiu o coração do adversário. Um outro inimigo, que havia conseguido a proeza de ferir superficialmente o Limiekki, foi mandado para o encontro de Lolth. O mateiro cortou-lhe com sua machadinha à altura do baixo ventre.

      O que restou lutava com Arthos e era o mais qualificado com uma lâmina. Usava também um sabre e esgrimava com o aventureiro da Comitiva habilmente, mas não o suficiente. O espadachim aventureiro, em um rápido movimento, encaixou a ponta de sua arma no punho da espada do adversário, arrancando-a de suas mãos. Arthos deu-lhe então um chute, derrubando-o ao solo e apontou o aço para o queixo do último oponente vivo.

      “Agora vai nos dizer quem é você e porque nos seguiu!”, disse, por fim. Um interrogatório estaria por começar.

Esta história é uma descrição em teor literário dos resumos de aventuras jogadas pelo grupo Comitiva da Fé em Salvador sob o sistema de RPG Dungeons & Dragons, Edição 3.5.

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