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A Queda

Por Allana Dilene



      Suas pernas andavam de modo autômato, acompanhando a mulher que momentos atrás parecia querer ajudá-la. Estarrecida e atônita, Aila Ilindiel lutava para compreender o que fizera. Agora, prostrada diante de uma torre circular imensa, forjada em ferro maciço e sólido, a barda observava os intricados inscritos que permeavam toda a parede. A passos lerdos, atravessou portões também em metal maciço, e desceu escadas que não pareciam terminar. Não atentava para os detalhes da construção que a cercava, atordoada que estava. A cada passo que dava, reminiscências dos últimos acontecimentos vinham à tona.

**********

      Abriu os olhos lentamente, e a paisagem era o que poderia se chamar de Um céu completamente cinzento abria-se ao horizonte, e planícies igualmente cinzentas pareciam estender-se infinitamente. Conforme despertava, sua mente trazia às claras o que havia acontecido: o golpe de machado fatal que espatifara suas vértebras, perpetrado por aquele monstro bárbaro sanguinário, fazendo-a perecer sem agonia.

      Instintivamente levou a mão ao local do ferimento, e viu que nada havia. Foi então que atinou a olhar para si mesma, vislumbrando-se no seu vestido púrpura preferido, e então juntou os fatos de maneira cabal — a pele, sem tom, provava o que sua mente se recusava a aceitar. Estava morta.

      Levantou a cabeça, atordoada. Então... estava morta. Olhou outra vez ao seu redor, enquanto buscava nas profundezas de suas memórias informações sobre o destino daqueles que morrem. Talvez tivesse até conseguido recordar mais detalhes, se não tivesse percebido diversos outros seres esbranquiçados como ela, vagando aparentemente sem destino. Almas sem corpos, tão confusas e perdidas quanto ela.

      Tentou desvencilhar a visão, e concentrar seus pensamentos. O que as diversas conversas em estalagens e tavernas poderiam revelar-lhe agora? Lembrou-se de uma conversa com um nobre da cidade de Águas Profundas, que desejava muito mais do que um vinho quente e uma conversa amena para aquecê-lo naquela noite.

      “Segundo o que me disse um sacerdote do Senhor dos Mortos, as almas são levadas ao Plano da Fuga, regido pela neutralidade de Kelemvor. Lá, elas aguardam até que um enviado do deus ao qual seus votos eram dedicados venha buscá-lo.”

“Entretanto, as almas dos descrentes têm um destino nefasto: são levadas para proteger a Cidadela dos Mortos, onde passam a eternidade a serviço do deus.”

      Um sussurro que parecia produzido pelos ventos trouxe Aila de volta. Ao longe, pôde observar uma enorme cidadela, de altas torres e muralhas, esbranquiçadas. Desnorteada e emaranhada em seus pensamentos, a barda de longas madeixas loiras e formas generosas seguiu até a famosa Necrópole.

      E se a sua fé não fosse o suficiente? E se o que ela fizera em nome da Senhora dos Cabelos de Fogo não fosse o bastante? Sune, a deusa da beleza e do amor, pregava o auxílio aos outros, para que eles também fossem dignos de conhecer os encantos da paixão. Aila não havia sido muito ativa em sua busca nos últimos tempos, mas outras causas demandaram-lhe a atenção. E estava certa de que havia promovido o nome da deusa. E sim, isso deveria bastar. A Senhora dos Cabelos de Fogo saberia recompensá-la. Com a confiança renovada, a barda continuou o caminho, embora um tanto incerta de onde ele fosse acabar.

      Conforme se aproximava da cidade, pôde divisar melhor os contornos das muralhas, e seus ouvidos filtraram o que julgava até então ser o uivo do vento: gritos e lamentos, vindos da cidade, proferidos pelas almas descrentes, que não negavam devoção a qualquer divindade. Então era assim que os ateus passavam a eternidade? Presos a uma cidadela, tornando-se parte de suas fundações?

      Assustada, sentiu as pernas fraquejarem. Decerto até o mais devoto dos homens se abalaria com tamanha privação. Instintivamente, sem conseguir desviar o olhar dos rostos de todas aquelas pessoas, afastou-se, tropeçando em um desnível de terra. Abalada demais para levantar-se, tentou se arrastar, quando uma voz feminina e suave surpreendeu-a:

      “Aila Ilindiel, seu lugar não é aqui.”

      Virou o rosto, surpreendendo-se com a visão: uma belíssima mulher, de traços harmoniosos e delicados, pele pálida e longos cabelos vermelhos estendia-lhe a mão, em um gesto benévolo de ajuda. Do alto de suas costas saiam felpudas asas num tom escarlate, e a mulher esboçava um leve sorriso tranqüilizador. Em frangalhos, Aila aceitou a ajuda, e ambas seguiram para longe da muralha.

      “Como sabe o meu nome?”
      “Eu sei de muitas coisas, Aila. E você já sabe o que aconteceu, não?”

      A jovem demorou um pouco, relutante em aceitar o fato, e assentiu com a cabeça silenciosamente. “Ótimo”, ouviu a desconhecida sussurrar.

      “Então você sabe também o que acontece com as almas a partir de agora, não é?”, sem esperar a resposta, continuou: “Sabe que aquele responsável por sua morte, aquele orc desprezível de nome Tarûk, também está morto? E que em breve estará recebendo sua recompensa? A recompensa por ter espalhado toda aquela destruição, por ter causado dor a tantas pessoas.”

      Aquelas palavras fizeram Aila parar a sua caminhada. Claro, se ele de fato morrera, sua alma seria recompensada por seu deus monstruoso de único olho. Discretamente, a desconhecida sorriu ao ver a reação da barda. Estava chegando aonde queria. Confiante, continuou seu discurso:

      “Sim, ele estará recebendo dons por ter matado tantas pessoas, e por ter disseminado a morte entre os elfos da Alta Floresta. Isso é o que você considera justiça, Aila Ilindiel?”

      “E... o que eu posso fazer para impedir?”
      “Junte-se a mim. Eu concederei a ti os poderes para a justiça necessária.”

      Aila estava confusa. Havia perecido pela lâmina daquele machado, e claro que faria alguma coisa se pudesse. Mas aqueles eram desígnios divinos: ele receberia seu descanso eterno, assim como ela também. Insegura, a jovem olhou para a mulher, que até então nem se preocupara em dizer o seu nome.

      “Mas... esta justiça não deve ser feita pelas minhas mãos. Isso não é correto. Não... não sou eu quem decido isso.”
      “Preciso lembrá-la então, Aila de Águas Profundas, que sua morte e a de seus companheiros foram em vão? O exército de orcs ainda se concentra na região, e em breve os elfos da cidade de Sylvan receberão retaliações. Você sabe que eles não poderão resistir. E você poderia evitar esse derramamento de sangue inútil. Não era isso que você queria em vida, Aila Ilindiel?”
      “Esses assuntos... já não me concernem.”, respondeu a barda, embora não estivesse tão segura de suas palavras. “Eu morri em prol dessa causa. Esses fatos... já não me dizem respeito.”

      Num ímpeto de coragem, sentido estar indo contra todas as suas vontades, deu as costas à desconhecida. Não sabia quem ela era, mas parecia uma criatura celestial – as feições harmoniosas, agora entristecidas, apunhalavam a barda. Sentia como se tivesse ferido uma beleza até então imaculada, até que novas palavras da mulher alada a fizeram parar mais uma vez:

      “E se eu disser que o seu irmão gêmeo, Alexander Ilindiel, também pereceu do mesmo golpe que tirou a sua vida?”

      Então se recordou do par de anéis de platina que comprou com a insistência do irmão. Em questão de segundos lembrou-se da prece que Alex fizera momentos antes de invadirem o acampamento orc, explicando que os ferimentos que Aila viesse a sofrer seriam partilhados por ele.

      “E não pense em protestar. Eu quero proteger você.”
      “Você está dizendo... que... ele morreu... por minha causa...?”

      A mulher não respondeu, e nem precisava fazê-lo. Mais uma vez, Aila levou a mão ao local onde deveria estar o ferimento, e imaginou a dor que seu irmão, um guerreiro santo, treinado para servir a Torm, sentira. E a morte dele teria sido tão vã quando a sua.

      “Ele... está aqui? Nesse lugar?”
      “Sim, está.”
      “Leve-me até ele! Leve-me até ele e... e então terá sua resposta.”
      “Infelizmente, as coisas não funcionam assim, Aila. Meus patronos lutam pela justiça verdadeira. A justiça que você também deseja. Você não deve me temer.”

      Passaram-se alguns minutos de silêncio que pareciam se estender por uma eternidade. Estava dividida entre o que acreditava ser a ordem celestial e o que seu coração desejava. Queria ser capaz ignorar aquele pedido, mas quem quer que tivesse mandado aquela mulher parecia compartilhar dos desejos de Aila. Respirou fundo e quebrou o silêncio que perdurará até então:

      “Eu aceito. Leve-me até meu irmão.”

      A mulher tocou a barda no ombro, que em um piscar de olhos viu-se em outro lugar. Estava agora próxima às muralhas, mas isso não a preocupava agora. Reconheceu o irmão, com suas grandes e exuberantes asas felpudas e esbranquiçadas, lutando entre demônios que pareciam estar realizando um ataque à Necrópole de Kelemvor.

      “Ele está em problemas. Vamos ajudá-lo.”

      Aila assentiu silenciosamente, e iniciou uma canção épica, que conhecia desde criança. Logo suas palavras soaram nos corações dos soldados de Kelemvor, e Alexander não tardou a reconhecer a irmã. Se não estivesse tão ocupado, teria se perguntado como ela teria chegado até ali. Com as esperanças renovadas, desferiu um ataque certeiro no seu oponente.

      Se não conhecesse seu irmão, Aila poderia dizer que ele de fato viera dos planos celestiais: alto, forte e com cabelos loiros que desciam até os ombros. As linhas do rosto eram definidas, extremamente semelhantes às do pai, que sequer chegou a conhecer, e acompanhadas por olhos azuis límpidos e claros, capazes de enxergar o mal no coração das pessoas. Do alto das costas, surgiam duas asas felpudas e brancas, manifestação recente de sua herança celestial. Asas essas que acabavam de ser feridas por um raio de fogo concentrado, lançado dos olhos do construto com o qual combatia.

      Era uma criatura bizarra, que possuía um corpo semelhante ao de uma aranha de órbitas vazias. Claramente artificial, se prostrava ameaçadora diante de Alexander, que, portando uma grande espada brilhante, desferiu dois ataques nas patas da criatura, mas que pouco a afetaram. A desconhecida de cabelos vermelhos bateu levemente as asas, elevando-se um pouco, e logo em seguida tensionou o arco, disparando duas flechas na direção do construto. Uma delas cravou-se no chão, enquanto a outra, com sua ponta flamejante, acertou o alvo.

      Então um som semelhante a uma corneta soou ao longe, e a horda demoníaca entendeu aquilo como sinal de retirada. O construto, instruído para essas situações, desceu suas grandes pinças aracnídeas e prendeu Alexander, sem muita dificuldade, e logo iniciou sua caminhada. Aila então iniciou uma nova e breve canção, invocando um hipogrifo, vindo dos planos de Sune. Usando o idioma dos planos celestiais, num tom um tanto desesperado, ordenou que atacasse a criatura. Enquanto isso, a mulher realizou dois tiros certeiros, um deles entrando na órbita vazia do construto, que em seguida caiu inanimado no chão. A barda respirou aliviada, cancelando a magia e agradecendo à Senhora dos Cabelos de Fogo, enquanto seu irmão alçava vôo em direção à jovem.

      “Aila, como... chegou até aqui? Como descobriu onde eu estava?”
      “Ela veio comigo, Alexander Ilindiel, paladino de Torm.”, falou sem esperar a resposta da barda, e em um tom repentinamente frio. Tornando o olhar para a jovem, continuou: “Seja breve com suas despedidas.”.
      “Despedidas...? Aila, do que este demônio está falando?”
      “De-demônio?”, gaguejou a jovem, estarrecida.
      “Ela virá comigo, paladino.”, a voz firme e seca da erynie[1] cortava os ouvidos de Alex. “Serão concedidos a ela os poderes para fazer a justiça que lhe foi negada.”.
      “E você vem me falar de justiça, criatura infernal? Justamente você?”, aumentou o tom de voz, e levou o olhar para a sua irmã. “E você, onde estava com a cabeça quando ouviu as palavras dessa mulher? O que deu em você, Aila?”.
      “Você não vê, Alex?!”, gritou a barda, em desespero. “Eu não sabia de nada! E eu não posso discernir o mal em alguém apenas com um olhar! Suponho que para você, paladino, tivesse sido mais fácil! Além do mais... eu...”, sua voz sumia enquanto sentia a garganta apertar pelas lágrimas sufocadas.
      “Agora é tarde. Ela não poderá quebrar o Pacto que fez comigo.”, falou a erynie “Aila terá as recompensas conforme o acordo: poderá fazer justiça a quem a matou, e será capaz de resolver os problemas terrenos pelos quais pereceu. Para tanto...”.
      “Eu não acredito que você fez isso, Aila!”, explodiu Alexander, desesperado. “Acha que essa é a verdadeira forma da justiça? Acha que é assim que se faz o bem, barganhando com demônios?!”.

      A barda não conseguia sequer falar. Agora havia entendido tudo perfeitamente, tão claro como a água. Sentia as pernas tremerem e o coração acelerado, principalmente por saber que não haveria volta. Em um impulso, abraçou o irmão, enquanto se policiava para não chorar. Desatento a isso, ele correspondeu ao abraço, enquanto sussurrava:

      “Eu não acredito, Aila. Minha irmã, como pôde? Como? Por quê?”
      “Então essas serão suas últimas palavras a sua irmã, Alexander Ilindiel?”
      “Eu tenho todo o direito de passar um sermão na minha irmã, demônio! Cale-se!”
      “É assim que você quer que ela se lembre de você, paladino?”

      Soltando-se do abraço do irmão, Aila levantou o rosto, encarando-o com o par de olhos violetas banhados em lágrimas.

      “Eu também fiz isso por você, Alex.”
      “Venha, Aila.”, chamou a erynie. “Quanto a você, paladino, espero não vê-lo nunca mais.”
      “O mesmo não posso dizer de você, demônio. E Aila, eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.”

      A erynie segurou a barda pelo braço, desaparecendo logo em seguida. Ainda tentando digerir o que aconteceu, Alexander deixou-se cair sentado, sentindo o rosto ser aquecido por lágrimas furtivas, enquanto dizia:

      “ ... nem que isso custe a minha vida.”

      Enquanto caminhava na direção de uma grande torre de brilho metálico, Aila sentiu novas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. As últimas palavras que ouvira de Alex ainda ecoavam-lhe na mente:

      “Eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.”

      Em outras palavras, ele seria capaz de matá-la, se preciso fosse.

      “Entre, Aila.”

      Se não fossem as circunstâncias, a visão seria impressionante. A grande torre era completamente feita de metal — as paredes, o chão, as escadas. As altas e opressoras paredes incandescentes mostravam-se praticamente intransponíveis. Estátuas de metal, das mais variadas temáticas, decoravam o lugar, que também trazia inscrições em baixo relevo, brilhando incandescentes.

      Andaram até um lance de escadas que desciam em espiral, dando em outra porta de metal maciço, entalhada com motivos infernais. Imaginava a quantidade de sortilégios que deveriam proteger aquele lugar, desencorajando qualquer possibilidade de fuga. Desceram por vários andares, e na maioria deles Aila pôde reconhecer claramente algumas armadilhas mágicas. E se mesmo seus olhos destreinados puderam notar, quantas deveriam ter?

      “Nova serva?”

      A voz era grave e profunda, e a barda não deixou de sentir repulsa quando viu quem a emitia. Era também um demônio daquela espécie, embora possuísse asas das mais negras possíveis. Tinha braços e pernas fortes, e sua pele era repleta de cicatrizes — algumas tão antigas que se mostravam esbranquiçadas pelo tempo. Nos dedos brilhavam anéis vários, e um par de braceletes adornava os braços fortes. Ela caminhou sem cerimônias na direção da barda, que instintivamente recuou. A acompanhante assentiu em silêncio, afastando-se da jovem. A erynie de asas negras examinava a barda atentamente, olhando cada detalhe de sua anatomia.

      “Esquálida e patética... venha comigo.”

      Desceram mais um lance de escadas, e Aila pôde finalmente vislumbrar o que imaginava ser o inferno em um só momento: pessoas acorrentadas às paredes, algumas gemendo sem forças, e outras sequer pareciam respirar. As paredes eram decoradas com atrocidades das mais diversas, e a jovem não conseguia desviar o olhar. Sendo puxada, a barda teve os pulsos envoltos por algemas grossas e enferrujadas. A cada momento, a certeza de que percorria um caminho sem volta apunhalava seu coração.

      Logo apareceram outras erynies, que a despiram sem a menor cerimônia. Os presos olhavam curiosos, enquanto outros agradeciam a algum deus por aquilo não estar acontecendo com eles. Vertiginosamente, Aila olhou por toda a sala, desejando alguém que pudesse ajudá-la. Cercada de criaturas que não conhecia e diante de um destino nefasto, se sentiu completamente sozinha. Entre sussurros, fez uma prece de perdão.

      Sentiu-se sendo levantada, e escutou o barulho de correntes sendo movimentadas por um tosco sistema de roldanas. Completamente desnuda de corpo, sentia-se cada vez mais desprovida de espírito. Conforme subia, sentiu arranhões no pulso, causados pelas algemas, enquanto filetes de sangue escorriam por seus braços, fazendo um contraste irônico: sangue vermelho em carne branca. Fechou os olhos, até que ouviu as correntes pararem.

      Olhando para baixo, viu um grande poço circular, que borbulhava algo parecido com lava. Sentiu-se sendo baixada lentamente, e então discerniu o que a esperava lá em baixo: sangue fervente, borbulhante. Em desespero, começou a se debater, mesmo que parte de si soubesse ser em vão. Ouviu pequenas risadas entre os flagelados, assim como as erynies. Seus pulsos se feriam cada vez mais, embora fosse a última coisa na qual pensasse agora. Queria se livrar daquilo; queria, de um modo infantil, estar sonhando e acordar assustada, suando. Entretanto, aquilo era real – bem real. Logo ela poderia provar.

      Seus pés tocaram o líquido quente — e ela gritou. Dobrou os joelhos, enquanto as correntes continuavam baixando sonoramente. As risadas das erynies ecoavam-lhe nos ouvidos, enquanto as palavras do irmão retumbavam em sua mente. Não era aquilo o que de fato queria — era tão errado assim desejar um pouco de justiça? Será que evitar o conflito entre duas raças, e um grande derramamento de sangue, valeria tão alto preço?

      Seu grito ecoou mais uma vez, quando, mesmo encolhida e com o corpo já dolorido, sentiu o sangue fervente tocar-lhe a pele novamente. Com os braços esticados e o corpo reteso há tanto, não conseguiu resistir — mergulhou as pernas até a altura do joelho, conhecendo o significado de dor lancinante. O sangue quente machucava a pele, pele que sabia ser alma, e Aila desejava que fosse uma dor ainda maior, e que lhe tirasse a vida de uma vez. Pensou em quantas pessoas não haviam passado por aquele tormento, em quantos gritos já não haviam ecoado naquela sala.

      As risadas diminuíram, mas não os gritos da barda. Sentia a corrente estremecer a cada vez que a corrente balançava, descendo lentamente, assim como podia sentir as batidas desesperadas do seu coração. De modo vão, tentava agarrar-se às boas lembranças: os momentos bons com Ahlan, seu tutor e amante; do abraço cálido de Vanir, aquele elfo bondoso por quem guardava tanto carinho. O que eles pensariam quando soubessem daquilo?

      Submersa até a cintura, ainda tinha forças para se debater, embora quisesse ter forças para se libertar, ou não mais tê-las e acabar logo com aquele sofrimento. A dor era terrivelmente constante. A garganta secava, mas não parava de gritar, e nem poderia, pois a dor não deixava. A corrente baixava cada vez mais, emergindo-a lentamente, e chacoalhares metálicos soavam violentos, acompanhando os gritos desesperados da jovem.

      Apesar de costumadas àquele espetáculo, a vã esperança demonstrada perturbava algumas erynies. Talvez porque fizesse vir à tona memórias de quando aquilo aconteceu a elas. Outras olhavam curiosas, talvez pensando que havia algo de irônico em ver alguém de sangue celestial ser transformado em demônio.

      Aila prendeu a respiração, e fechou os olhos, conforme sentiu-se afundar completamente no poço de sangue. Tentava levantar o rosto, mas graças à dor, já não conseguia fazê-lo. Sentiu o corpo completamente submerso, enquanto ainda tentava forçar os braços para elevar-se acima do nível do poço. Em vão.

      Logo seu peito começou a doer, e ela sentiu que precisava de ar. Sabia o que iria acontecer, mas não pôde resistir e relaxou os pulmões, expirando toda e qualquer esperança de vida. Abriu os olhos e viu apenas o vermelho forte diante de si, e sentiu-os ardendo. Tentou gritar, e além de ter seu grito abafado, sentiu o gosto do sangue quente e viscoso descendo pela garganta, queimando-lhe as entranhas.

      A corrente foi parando lentamente, até não mais se movimentar.

      Silêncio no calabouço.

      As roldanas foram mais uma vez ativadas, e logo a corrente foi subindo, mostrando uma Aila de tez bem mais pálida, cabelos loiros encharcados de sangue, e asas escarlates a brotarem do alto das costas, com sangue pingando por toda a sua extensão, conforme se abriam lentamente.

      Nenhum movimento.

      Até que ela inspira sonoramente. Renascida.

      Abriu os olhos, outrora de um violeta misterioso, possuindo agora um brilho estranho, capazes de se destacarem sozinhos na escuridão. Da boca vertia um sorriso. Maligno. Cruel. Demoníaco.

[1] Erynie: o termo erynie vem das criaturas mitológicas erínias, também chamada pelos romanos de Fúrias. Eram deusas horríveis, e tinham a função de punir os mortais por crimes de sangue entre famílias. E conforme sua influência religiosa aumentava na sociedade, sua imagem foi ligada ao Inferno.



Sobre o Autor


Allana Dilene

Allana Dilene mora em João Pessoa, Paraíba, e joga RPG desde os 12 anos. Conheceu os Últimos Dias de Glória por acaso, enquanto procurava sobre alguns monstros de D&D. Achou a idéia do site muito interessante e resolveu ajudar. Formou-se em Letras na Universidade Federal da Paraíba, estuda ocasionalmente e adora literatura.

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